SÃO MIGUEL DO GOSTOSO VIVENCIA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

A intolerância ao longo da história tem um histórico NÃO muito bom.  No entanto, contraditoriamente continuamos a ver gestos de intolerância e muitas vezes os PRATICAMOS em pleno século XXI.

POR AUXILIADORA RIBEIRO – NATAL/RN

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Cartaz do evento

Primeiramente devo esclarecer que o motivo deste artigo é bem pessoal, no entanto, tenho ciência que muitos CRISTÃOS CATÓLICOS também ficaram ofendidos com uma publicação do representante da Igreja Assembleia de Deus de São Miguel do Gostoso feita nesta última quarta-feira (09/12) sobre o evento VEM NA FÉ 2015 organizado pela comunidade católica da paróquia de São Miguel Arcanjo, que acontecerá neste dia 11 de dezembro.

Abaixo o print da declaração:

 

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Imagem retirada do Facebook

O filósofo inglês John Locke NA CARTA ACERCA DA TOLERÂNCIA escreveu o que cai bem certinho nesse contexto:

Desde que pergunta minha opinião a cerca da MÚTUA TOLERÂNCIA ENTRE CRISTÃOS, respondo-lhe, com brevidade, que a considero como SINAL PRINCIPAL E DISTINTIVO de uma VERDADEIRA IGREJA.

E sabe que concordo com ele! Se ainda não convenceu tem mais:

A TOLERÂNCIA para os defensores de opiniões opostas acerca de temas religiosos ESTÁ TÃO DE ACORDO COM O EVANGELHO E COM A RAZÃO que parece monstruoso que os homens sejam cegos diante de uma verdade tão clara.

Mas enfim, não estou aqui para convencer os leitores de que a TOLERÂNCIA é imprescindível, porque isso já estamos carecas de saber! Sim, estamos carequinhas de saber, pois acompanhamos com frequência nos veículos de comunicação as catástrofes e sofrimentos causados pela falta de tolerância. A intolerância traz consigo o radicalismo, e radicalismo traz consigo crueldade, e crueldade não é o que Jesus veio anunciar-nos.

Quando vi essa publicação lembrei-me de outros episódios intolerantes dos nossos irmãos evangélicos para com nós católicos. Então pensei… Devo escrever sobre isso! Certa vez foi um comentário a respeito de uma publicação do Facebook sobre a festa de nosso padroeiro SÃO MIGUEL ARCANJO.

E outra vez foi claramente uma crítica a alguns representantes da Igreja Católica, inclusive eu, que estava na audiência pública sobre a “guerra do som” feita por um irmão evangélico que faz parte do poder legislativo do nosso município.

Ele afirmou que não entendia como pessoas que dizem professar uma fé defendem esse tipo de coisa. E esse tipo de coisa são as festas tradicionais do nosso município. Estávamos defendendo nossa tradição cultural.  Nesse momento tive que ser tolerante e não rebater, porque lidar com radicalistas é difícil.

Locke ainda orienta: Seja no que for que certa igreja acredita, acredita ser verdadeiro, e o contrário disso condena como erro.

Mas o papel da igreja pelo que eu saiba não é julgar. Por isso, declaro que as coisas velhas já se passaram e somos novas criaturas a cada dia, porque acredito que conversão é um caminho. Se as coisas velhas já se passaram realmente, por que então o mesmo discurso intolerante? Não vejo autoridade para dizerem que no evento religioso VEM NA FÉ não vivenciamos a palavra de Deus!

A comissão organizadora do VEM NA FÉ há meses vem promovendo ações para a realização desse evento  GRATUITO. Ações como festival de prêmios, feijoada, arrastão da fé, venda de camisas. Não é justo que um evento feito para louvar ao Senhor leve fama de não vivenciar a palavra de Deus.

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Quem disse que cristão não se diverte??? Deus nos fez livres! E quando nos tornamos escravos ele veio nos libertar com o preço do seu sangue. Somos livres… Aderimos a determinada religião voluntariamente, ou ao menos deveria ser assim.

E para terminar devo ainda citar Locke: Não terei necessidade de descrever a qualidade e a abundância do fruto que seria acumulado, tanto à Igreja como ao Estado, se os púlpitos em toda parte ressoassem a doutrina da paz e da tolerância.

A tolerância deve ser praticada por todos, como diz a música do Teatro Mágico O Tudo É Uma Coisa Só:

Católico, evangélico, budista, macumbeiro, corintiano
Espírita ou ateu
Todo mundo busca a paz interna, tâmo aqui pra ser lanterna
Foi assim que Ele escreveu
Palavras e palavras e palavras
E ainda acham que o deus do outro não pode ser meu

Não estamos numa guerra, portanto, esse artigo não é em prol de vencedores, mas sim pra relatar uma realidade triste que não é só em Gostoso que acontece, é no Brasil e no mundo.

O evento VEM NA FÉ não é só para católicos, é para TODA A COMUNIDADE! O festival Halleluya, por exemplo, que aconteceu nesse último fim de semana de 4 a 6 de dezembro reuniu católicos, evangélicos, ateus, em fim, reuniu o POVO! Por isso vem Na Fé você também louvar ao Senhor!

 

RELAÇÃO NATIVOS E PESSOAS DE FORA: UMA COLONIZAÇÃO SILENCIOSA EM SÃO MIGUEL DO GOSTOSO

A pequena vila de pescadores se transformou em um lugar visível no Brasil e no mundo e aos poucos foi tornando-se um dos maiores pontos turísticos…

POR AUXILIADORA RIBEIRO – NATAL/RN

São Miguel do Gostoso, Rio Grande do Norte, Esquina do continente Sul-Americano, “aonde o vento faz a curva”. Quem poderia resistir aos encantos desse lugar?! Quantas mudanças já aconteceram  e vêm acontecendo nessa terra abençoada com belas praias e ventos constantes, que possibilitam a instalação de empresas de energia eólica, pousadas, escolas de kitesurf e windsurf, agências de turismo, etc.

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Imagem de Auxiliadora Ribeiro: praia do Maceió

Um lugar que carrega o nome que realmente lhe caracteriza: “GOSTOSO”. Conhecido como terra de gente acolhedora, sim, “É GOSTOSO MORAR AQUI!” Ou melhor, não seria: É DIFÍCIL MORAR AQUI?

Devido a essas características promissoras, nosso município vem enfrentando transformações aceleradas. A pequena vila de pescadores se transformou em um lugar visível no Brasil e no mundo, e aos poucos foi tornando-se um ponto turístico. Esse fenômeno tem modificado brutalmente a cultura do povo gostosense.

À medida que novas pessoas escolhem São Miguel para viver, para investir em seus negócios, vai se construindo novas relações sociais. E é isso que vamos analisar, ou ao menos tentar.

Como vem se dando a relação entre nativos e as pessoas de fora em Gostoso à medida que ele se desenvolve e se transforma? Como se tem lhe dado com os choques culturais?

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Imagem de Ariclenes Silva

Em 4 de setembro de 2012 o blog noBalacobaco expôs uma matéria intitulada “Minoria de São Miguel do Gostoso tem preconceito com pessoas de fora que escolhem cidade para viver” na qual encontro alguns equívocos.

Devemos considerar que a relação entre os nativos e as pessoas de fora não vem sendo fácil porque o tal desenvolvimento de São Miguel do Gostoso que tanto se fala na matéria, talvez não esteja dando oportunidade para a população nativa Gostosense de fato se desenvolver. Mas o autor da matéria tem uma visão contrária, afirmando que:

[…] Em São Miguel do Gostoso tem uma minoria que prefere nadar contra a corrente. São pessoas xenófobas – aquelas que odeiam quem vem de fora – e muito preconceituosas. São agressivas com os que escolheram a cidade para viver e trabalhar.

Veja a matéria clicando aqui

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Imagem de Ariclenes Silva: centro de Gostoso

Senti muitos exageros, chega ser apelativo, pois particularmente não ouvi falar de que algum nativo tenha maltratado turistas, aliás, Gostoso não é terra de gente acolhedora?  Quero destacar trechos de dois comentários interessantes, que infelizmente foi feito por anônimos, a respeito dessa matéria:

Mero engano Emanuel. O que as pessoas sentem é medo e aversão. Os primeiros estrangeiros a se radicarem aqui trouxeram um tipo de visão e educação diferente e evoluída do que já havia sido visto, por exemplo, Ana Raboult e Paolo Migliorini, exemplos de primeiro mundo, com educação privilegiada e censo humanitário. Mas os primeiros brasileiros empreendedores a explorarem o local trouxeram só malefícios […](Anônimo, 5 de setembro de 2012)

Sou de São Miguel e nunca ouvi falar em preconceito aos turistas que realmente trazem benefícios a cidade, e sim aos que trazem o mal, como: influencia no tráfico de drogas e no turismo sexual. (Anônimo, 5 de setembro de 2012)

O turismo sexual é um fato registrado numa dissertação de mestrado de um aluno da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN sobre o turismo em São Miguel, além de outros fatores. Veremos alguns pontos importantes mais adiante.

Na matéria do noBalacobaco se destaca ainda:

Os mais velhos devem se lembrar o que era São Miguel do Gostoso antes da descoberta do turismo. Tratava-se de uma beira de praia linda, mas com uma economia pobre, vinculada a uma pesca artesanal e a uma agricultura rudimentar. Foi o turismo quem impulsionou o desenvolvimento de São Miguel do Gostoso. Além de renda e empregos, tornou a cidade conhecida tanto no Brasil como no exterior. Apesar disso, sempre têm as vozes do atraso contrárias a quem é de fora e ao turismo.

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Imagem de Ariclenes Silva: praia do Tourinhos

Desenvolvimento na economia e no turismo? (Para quem? Ou para quantos?) Não vejo! Será que estou cega? Ou será que São Miguel estar sendo projetado lá fora do jeito que não é? O que vejo é que Gostoso continua sendo uma “beira de praia linda” com uma infraestrutura precária para o potencial turístico de que tanto se fala e que de fato tem. Desenvolvimento em que sentido? Em que sentido pode-se dizer que o Gostoso de hoje é melhor do que antes, só olhando para a economia? E o social, onde fica? Não tem importância?

Ah! Tantas coisas faltaram nessa matéria… Por exemplo, o fato da “guerra do som” que gerou até audiência pública (confira o artigo), até festas tradicionais como carnaval, festa de padroeiro, festas de São João é uma “novela” para poder acontecer. No meu conceito de desenvolvimento se leva em consideração a qualidade da educação, oportunidades, empregos dignos e com oportunidade de crescimento pessoal, investimentos em cultura (pois o turismo é inseparável da cultura), saúde e segurança exemplar, enfim, qualidade de vida!

No documentário “São Miguel do Gostoso”, produzido pela Heco Produções, há uma fala interessante de uma estrangeira que escolheu São Miguel para morar: “não pretendo que eles se adaptem a mim eu me adapto a eles”.

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Imagem retirada do documentário

Declaração digna de aplausos, pois mostra que não é mais um(a) dos conquistadores(as) que a exemplo da colonização do Brasil, submeteram brutalmente os nativos (índios) a trabalhos escravos impondo-lhes sua cultura e ainda afirmavam que o índio era preguiçoso, expressão comum nos livros de história.

Veja o trailer do documentário

Talvez em São Miguel esteja ocorrendo uma colonização brutal silenciosa, pois como afirmou Stuart Hall em seu livro A IDENTIDADE CULTURAL NA PÓS-MODERNIDADE: “Cada conquista subjugou povos conquistados e suas culturas, costumes, línguas e tradições, e tentou impor uma hegemonia cultural mais unificada.” Não será isso que vem ocorrendo em nosso município?

Isso nos leva a pensar em alguns pontos: será que os nativos que trabalham para os empresários estrangeiros e brasileiros de outras regiões têm condições dignas de trabalho nas pousadas, restaurantes, supermercados, lojas, etc? Será que tem todos os direitos trabalhistas? Será que ganham ao menos o salário mínimo? As pessoas de fato estão tendo boas oportunidades de crescimento em São Miguel com esta alavancagem turística?

São questionamentos difíceis, que cabe a cada gostosense se fazer e que renderia uma ótima investigação! Não é à toa que Gostoso também é alvo de várias teses de graduação, mestrado e doutorado nas universidades.

Um exemplo é a dissertação de mestrado intitulada: “AQUI SE FAZ GOSTOSO”: UMA ETNOGRAFIA DO TURISMO EM SÃO MIGUEL DO GOSTOSO/RN do autor Paulo Gomes de Almeida Filho, estudante da UFRN. Nesse trabalho há um tópico “Nativos e Turistas” que vem justamente confirmar os conflitos nas relações sociais entre nativos e pessoas de fora:

As relações entre turistas (estrangeiros e brasileiros) costuma ser superficial ou limitada a prestação de serviços. […] Apesar disto, a relação entre turistas e moradores nem sempre é livre de conflitos, uma das principais diz respeito aos espaços. A praia do Maceió é um tradicional centro pesqueiro. São muitos os pontos de sociabilidade de pescadores nesta praia, também espaço de comemoração, desde a origem da vila, do carnaval e da festa de São Pedro, festividades de grande significado cultural para os pescadores nativos. Hoje na praia encontram-se também instalada algumas pousadas (entre elas a Pousada dos Ponteiros de Emanuel Neri) que transmitem e vendem a imagem de espaços de tranquilidade e descanso. Naturalmente, as festas realizadas pelos pescadores rompem com a imagem pretendida por essas pousadas e reverbera em conflitos:

A gente sempre se reuniu aqui, e é claro que como a gente não se diverte sempre, quando tem uma festa a gente quer aproveitar até o dia nascer. Mas aí proibiram por causa das reclamações do Emanuel (Neri) e da pousada ‘Só alegria”, dizendo eles que tá incomodando os hóspedes deles. (Interlocutor W – pescador, 09/2014)”

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Imagem de Ariclenes Silva: pescadores

Tenho a impressão de que o que está havendo não é preconceito com os que vem de fora para morar em São Miguel, é resistência com os que é de fora que quer dominar e impor. É preciso analisar essa questão com cautela, não se trata simplesmente de xenofobia, infelizmente não.

Ainda no documentário da Heco produções há uma outra fala interessante: “São Miguel, terra barata!”

Terra barata para os que tem dinheiro e que compraram terras aos nativos, a preços, que hoje são inimagináveis. Gostoso está mais caro do que nunca!

As pessoas estão preferindo fazer compras em Natal mesmo com os custos da viagem. São poucos os nativos que podem frequentar os restaurantes, e outros espaços, que parece ser pensado apenas para os turistas. Percebemos dessa forma que tudo isso vai muito além do preconceito, porém, a referida matéria foi superficial demais para analisar tais questões, pois afirma:

Na verdade, além do preconceito, quem age assim também carrega consigo grande carga de infelicidade e uma enorme dificuldade de conviver pacificamente com pessoas que, embora de fora, têm os mesmos direitos de quem nasceu na cidade.

 Pois, que esteja bem claro, que não se trata de mesmos direitos. E em se tratando de igualdade de direitos, observa-se que quem estar em desvantagem é a população nativa (jovens se acabando nas drogas, custo de vida elevado, falta de investimentos na cultura, no esporte, trabalhos mal remunerados, etc.).

As minorias ditas preconceituosas, talvez sejam aquelas que estão lutando contra tudo isso. E a luta não é para manter uma cultura fixa, uma cultura dos tempos em que Gostoso era uma vila de pescadores, pois as sociedades se modificam, e sabemos que cultura que é fixa morre, o que estar se lutando é por um turismo humanitário, que inclua a todos, nativos e pessoas de fora que investem e escolhem São Miguel para viver. O ideal é que todos coexistam, mas com justiça social.

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