A MOTIVAÇÃO NA RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO: UM PONTO DE VISTA A PARTIR DA PSICOLOGIA EDUCACIONAL

POR CYNARA RIBEIRO
PROFESSORA DA UFRN.

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Para entendermos melhor o papel da motivação na relação professor-aluno, vamos primeiro tentar situar o que é motivação e de onde ela vem. Etimologicamente, a palavra motivar reporta ao verbo latim movere, que deu origem à palavra motivo. Do ponto de vista da Psicologia, o sentido da palavra motivação relaciona-se de perto com o seu significado na língua: em termos psicológicos, motivação é definida como aquilo que move uma pessoa em direção a um determinado objetivo, é o que a põe em ação; é o que nos faz escolher, dentre um leque de opções possíveis, uma determinada ação; é o que nos faz iniciar esta ação e é o que nos faz manter esta ação.

Então, a motivação está na base de todos os comportamentos humanos, desde os mais primitivos até os mais complexos: há uma motivação para dormir e para acordar; há uma motivação para vocês estarem lendo esse texto; há uma motivação para eu estar escrevendo esse texto; enfim, tudo o que fazemos tem como pano de fundo alguma motivação. Pelo fato de a motivação estar na base de todos os nossos comportamentos, estudos concluíram que são diversos os fatores que atuam para desencadear ou manter o estado de motivação: há fatores fisiológicos, há fatores sociais, fatores culturais, fatores contextuais, dentre outros.

Agora uma pergunta: será que a motivação para comer é diferente da motivação para ser aceito em um grupo? Sim, são motivações diferentes: uma de cunho mais fisiológico, e outra de cunho mais relacional. E a motivação para aprender seria de cunho mais fisiológico ou seria de cunho mais relacional? Para a Psicologia, a motivação para aprender é de cunho mais relacional, diferente da motivação para comer, dormir, fazer determinadas necessidades, que são de cunho mais fisiológico. Mas se não vem apenas da fisiologia, de onde vem a motivação para aprender?

Acredito que vocês já devem ter ouvido uma frase do tipo: “ah, a motivação para aprender tem que vir do aluno, ele tem que querer”. Também acredito que vocês já devem ter ouvido uma frase do tipo: “ah, para estar motivado para aprender, o aluno tem que ser estimulado, por algo ou por alguém, pode ser uma recompensa, um elogio”. Essas duas posições extremas revelam uma dicotomia entre o que os estudos recentes têm chamado de motivação intrínseca e motivação extrínseca.

Na motivação intrínseca, o aprendiz é visto como alguém que já traz em si uma motivação, é aquela pessoa automotivada, que tem um papel ativo sobre a própria motivação. Já na motivação extrínseca, o aprendiz é visto como alguém que precisa de estímulos externos para se motivar.

escolaBom, se a gente entende (e eu entendo assim) que o ser humano se constitui no e pelo mundo, ou seja, que se constitui a partir de sua história de vida, de suas experiências, de sua relação com os outros, das próprias características da sociedade e da cultura em que está imerso, se a gente acredita nisso, essa dicotomia entre motivação intrínseca e motivação extrínseca revela-se frágil. Isso porque para uma pessoa estar intrinsecamente motivada a fazer algo é necessário que isso tenha alguma relevância no contexto no qual essa pessoa está inserida; de algum modo, a pessoa apreendeu que fazer isso seria importante.

Então, na verdade, motivação intrínseca e motivação extrínseca devem ser entendidas como um continumm. Isto é, há entre motivação intrínseca e motivação extrínseca não uma separação, mas sim uma continuidade. E qual é a importância dessa discussão para a educação? Bom, a importância de entender motivação intrínseca e extrínseca como um continuum é que isso nos adverte para não criar expectativas de “aluno ideal” ou de “professor ideal”. Nem existe esse aluno ideal, automotivado, com objetivos claros e disposição interna para alcançar tais objetivos; nem existe um professor ideal ou uma aula ideal, capaz de motivar todos os alunos o tempo todo.

Dizer que não existem aluno ideal e professor ideal implica em dizer que não podemos estabelecer relações simplistas (deterministas) entre atuação do professor e motivação do aluno. É claro que esses dois elementos se relacionam, mas não há entre eles relação de causa e efeito.

De fato, o que as pesquisas indicam é que há forte correlação da motivação dos alunos com dois elementos: a prática pedagógica e a própria motivação do professor. Sem desconsiderar a importância do primeiro, quero finalizar dizendo algumas palavras sobre o segundo elemento. E nesse ponto eu proponho a motivação como uma espécie de encantamento. O que é que isso quer dizer? Recorrendo de novo ao dicionário, temos que encantar é um verbo transitivo que significa: 1. Lançar encantamento ou magia sobre, enfeitiçar; 2. Transformar um ser em outro, por artes mágicas; 3. Seduzir, cativar; 4. Maravilhar-se, extasiar-se; 5. Transformar-se em outro ser por artes mágicas.

Percebam que o significado de encantar comporta uma aproximação com encantar-se: transformar um ser em outro por artes mágicas e transformar-se em outro por artes mágicas. Essas duas definições aparecem como se fossem a mesma coisa. Dessa aproximação, extraímos que, como disse uma pedagoga chamada Ostetto (2010), para exercer a magia, para lançar encantamento sobre outrem, é preciso que o indivíduo em primeiro lugar encante a si mesmo.

Assim, podemos dizer que “para encantar, é preciso encantar-se”. E para encantar e encantar-se é claro que é necessário conhecimento (é preciso conhecer os conteúdos, as técnicas, os métodos, as didáticas), mas não pensem que isso, por si só, será o suficiente. É preciso, além do conhecimento, entrega, desejo, disposição para o reconhecimento das próprias contradições e das contradições do outro, respeito ao próprio ritmo e ao ritmo do outro. Ou, repetindo, é necessário encantar-se para poder encantar.

Bibliografias Utilizadas

  • NUNES, Ana Ignez Belém Lima; SILVEIRA, Rosemary Nascimento. Os processos de aprendizagem nas psicologias de Vygotsky e Wallon. Psicologia da Aprendizagem: processos, teorias e contextos. Brasília, DF: Liber Livro, 2011. p. 103-131.
  • OSTETTO, Luciana Esmeralda. Para encantar, é preciso encantar-se: danças circulares na formação de professores. Caderno CEDES, v. 30, n. 80, p. 40-55, jan./abr. 2010.

Autor: Ailton Rodrigues

Técnico em Informática (IFRN), que adora esportes e jornalismo, estando sempre disponível para bons papos. Coordenador de Comunicação do clube de futebol TEC (Tabua Esporte Clube), membro do Conselho do Coletivo de Direitos Humanos, Ecologia, Cultura e Cidadania (CDHEC), comunicador da Mostra de Cinema de Gostoso. Atualmente aluno de Licenciatura em Pedagogia (UFRN).