A MINHA SANIDADE VEM EM PRIMEIRO LUGAR

POR FÁBIO CHAP

segundo-turno-eleicoes-2018-bolsonaro-haddad

Eu não tô debatendo com absolutamente ninguém que se manifesta ferozmente anti-PT ou totalmente a favor do Bolsonaro.

A minha sanidade vem em primeiro lugar.

– Ontem, o atendente da padaria que eu compro suco de açaí todo santo dia disse que tem que armar todo mundo mesmo, sentar o dedo em vagabundo. Que nordestino é burro e que negro é mais racista com negro do que os próprios brancos. Ele é baiano. E negro

– Ontem, um parça disse que o próprio pai bloqueou ele no Whats depois de uma discussão política e que tá foda a situação.

– Ontem, um amigo deu suas visões num grupo de Whatsapp e o grupo – de amigos de mais de 15 anos – se deteriorou.

– Ontem, eu sofri 7 ameaças de militaristas via Instagram porque postei alguns vídeos que gravei com o pessoal da Intervenção Militar queimando urna eletrônica na Av. Paulista.

– Ontem foi o dia da minha vida que eu mais li a palavra ‘medo’. Não me recordo de nenhum outro dia em que eu tenha lido tanto essa palavra.

Tudo isso ontem. Não quero nem imaginar o que virá nas próximas semanas e meses.Dentre todos meus amigos, familiares e parças de trabalho, eu sou a pessoa que mais se posiciona nas redes sociais. Faz 5 anos que meu trabalho online se baseia em me posicionar sobre praticamente tudo sobre o momento sócio-político do país. Quem me acompanha sabe em quantas enormes tretas já me envolvi. Já paguei muito por isso. Emocionalmente, inclusive.

Mas nessas eleições eu diminuí os enfrentamentos e fingi ser surdo numa pá de momentos. Minha sanidade vem em primeiro lugar.Isso não significa que eu não falei, que não me manifestei. Isso significa que nas vezes em que a situação iria claramente virar uma treta gigante e insolucionável, eu me poupei.

Nessas eleições sabe o que eu tenho buscado? Estar com os amigos o máximo de tempo que eu posso. Estar mais conectado com a minha família. Fazer exercícios regulares. Ouvir música que eu amo. Ler muito. Beijar a boca da minha linda.

De que iria adiantar eu me posicionar em cada discussão de bar e voltar pra casa destruído, sem esperança na humanidade?

Como eu vou conseguir ajudar as pessoas a refletir sobre esse momento – que é o cerne do meu trabalho – se eu estiver totalmente derrotado e abalado pelas circunstâncias

Agora, só entro em discussão que eu tenha certeza que não vai virar um campo de guerra.

Estar bem comigo mesmo é o meu ato revolucionário pra esse momento.

**

Autor: Ailton Rodrigues

Técnico em Informática (IFRN), que adora esportes e jornalismo, estando sempre disponível para bons papos. Coordenador de Comunicação do clube de futebol TEC (Tabua Esporte Clube), membro do Conselho do Coletivo de Direitos Humanos, Ecologia, Cultura e Cidadania (CDHEC), comunicador da Mostra de Cinema de Gostoso. Atualmente aluno de Licenciatura em Pedagogia (UFRN).