O CONTADOR VIU: SEX EDUCATION (1ª TEMPORADA)

Trama traz o sexo como plano de fundo para ser forte e cômico ao abordar questões complexas da adolescência.

POR AILTON RODRIGUES
PARNAMIRIM, RN

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Já faz algum tempo que a Netflix investe em conteúdos originais para ser autossuficiente e não depender de outras empresas que retirarão do seu catálogo muito material, como é o caso da Disney, por exemplo. Nesse contexto a série britânica Sex Education, feita por Laurie Nunn, é um grande feito na busca desse objetivo: um entretenimento bom e por muitas vezes cativante.

A trama traz o jovem Otis (Asa Buterfield) que ajuda um colega da escola em um problema sexual, quando é convidado por Maeve (Emma Mackey que é a cara da Margot Robbie!) a ajudar outros colegas com seus problemas, como realizando terapias. Tal qual faz sua mãe que já é a terapeuta Jean, vivida pela atriz mais conhecida deste elenco Gillian Anderson (aquela mesma do Arquivo X e Hannibal). Todavia o próprio terapeuta juvenil tem problemas e mostra para nós que isso é comum.

Aliás, esse plano de fundo que a série nos transporta é o que dá a cola para acompanharmos todas as tramas: o sexo! Com isso, vamos mergulhando nas características do velho humor britânico, aquele que não tem a menor vontade de nos despertar gargalhadas, mas rir da vergonha alheia e das situações simples do dia a dia. É escrachada, mas vai sendo aliviada ao longo dos 08 episódios (acho que poderiam ser episódios menores).

O ROTEIRO

O roteiro de Sex Education é escrachado. Abusa da comédia no início e vai pincelando com dramas ao longo do didatismo que é tratado a sexualidade. Com isso, os temas fortes vão sendo entregados pouco a pouco, mas muito aberto e mal resolvido.

Temas poderosos como aborto, bullying e homofobia são passados muito rápidos e deixam lacunas que não nos permite entender as motivações dos personagens com clareza. Se é para abordar os temas com mais afinco, deveriam ter usado mais o tempo para isso. Não dá para simplesmente ignorar que uma adolescente cometeu um aborto, ou que a agressão motivada por homofobia seja resolvida apenas com uma palavra de consolo.

Mas é claro que tirando essa seriedade toda, a gente vai se envolvendo em tudo. Aliás, sabe a sensação de assistir aqueles filmes da Sessão da Tarde com muito estereótipo de escola do ensino médio? Isso tem de sobra, só que inserindo besteira, palavrões e alguma sacanagem.

Um ponto legal desse roteiro é a atemporalidade. Não conseguimos definir o tempo real da série, apesar que eles usam smartphones e usam aplicativos de mensagem. Mas em muito momentos trazem carros e objetos dos anos 80. Talvez não seja a intenção nos definir um momento temporal mesmo, mas é visível que em espaços onde são criados os tabus da sexualidade o ambiente é bem mais antigo e velho.

OS PERSONAGENS

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Personagens são muito bons na série.

A falha da série, ao meu ver, é deixar os protagonistas por muitas vezes bem apagados. O personagem do Eric (Ncuti Gatwa) é incrível e lida com muitas situações fortes que chegam a nos emocionar – no fundo queria uma série só dele! – onde ser gay e negro em uma escola praticamente de brancos é uma batalha diária.

O gay enrustido, as patricinhas, os nerds, o diretor mandão são bem legais e mostram mais uma vez os estereótipos que mencionei acima. Voltando para os protagonistas, o Otis tem um trauma forte ocasionado por sua mãe, que ao abordar sobre sexo onde aparentemente ele não tinha maturidade para isso, o deixou meio que travado.

“Sexo pode ser maravilhoso, mas também pode causar uma dor imensa. E se não tomar cuidado… Sexo pode arruinar vidas” – Jean, personagem da Gillian Anderson.

A Maeve é uma menina feminista, empoderada e que se vira como pode. Sem ter pais e com uma inteligência acima da média, mas que se esconde por uma camada de humor ácido e certa arrogância. Por outro lado, a mãe do Otis é uma mulher que lida com muitos problemas, mas não consegue se entender em alguns momentos.

Em um breve resumo são núcleos bons, todos os personagens tem algo a entregar para nós e eles até conseguem em algum momento, mas como disse anteriormente as vezes sentimos que foi corrido demais e isso talvez seja resolvido na 2ª temporada.

Minha recomendação é: ASSISTAM!

Até qualquer hora!

Autor: Ailton Rodrigues

Técnico em Informática (IFRN), que adora esportes e jornalismo, estando sempre disponível para bons papos. Coordenador de Comunicação do clube de futebol TEC (Tabua Esporte Clube), membro do Conselho do Coletivo de Direitos Humanos, Ecologia, Cultura e Cidadania (CDHEC), comunicador da Mostra de Cinema de Gostoso. Formado em Pedagogia (UFRN).