5 MOTIVOS PARA VOCÊ NÃO PERDER O AUTO DE NATAL NESTE SÁBADO (17)

O Contador mostra para você bons motivos para que sua família prestigie o Auto de Natal de Gostoso.

POR AILTON RODRIGUES
SÃO MIGUEL DO GOSTOSO/RN

15578859_10202417667360646_3398976292171600340_n
Ensaio já deu uma palhinha do que vai acontecer.

O Auto de Natal de Gostoso acontecerá neste sábado (17) na Praia da Xêpa e o Contador separou alguns motivos para que você não perca o evento que promete ser belíssimo. Confira:

#01 – GENTE DA GENTE

O primeiro motivo para você ir prestigiar o Auto é simplesmente porque todos os atores são de Gostoso, inclusive alguns deles estão fazendo o espetáculo pela primeira vez, já outros assumiram papeis diferentes do que em anos anteriores. Enfim, ver nossos atores sempre causam muito prazer.

#02 – VOCÊ TAMBÉM FAZ PARTE DO SHOW

O Auto desse ano é solidário e só está acontecendo graças a doações, portanto nada melhor do que prestigiar o espetáculo que você mesmo ajudou! Sinta-se orgulhoso por ser parte dessa festa da cultura gostosense.

#03 – TEXTO ADAPTADO

Airis Vital e Auxiliadora Ribeiro deram um retoque todo especial no texto desse ano do Auto de Natal, a adaptação é do texto de Val Dias conhecido como “Um Menino Nasceu Para Nós” e foi apresentado entre os anos de 2009 e 2010.

#04 – AO AR LIVRE

Um espetáculo ao ar livre, com o vento, o mar e o vento fazendo parte da trilha sonora é formidável. Nós garantimos que você não vai se arrepender em assistir um show como esse e não se encantar com todo o conjunto da obra.

#05 – A CULTURA ESTÁ EM TODO LUGAR

15589978_10202417686201117_5476266615941570239_n
Balé, Boi de Reis e outras danças estarão no Auto de Natal.

Manifestações culturais como o Boi de Reis estarão presentes no Auto de Natal e assistir é o mínimo que podemos fazer para que esses costumes não morram. Vamos apreciar nossa cultura! E aplaudir aos jovens que ainda lutam para manter a chama acesa.

Enfim, esses são apenas 5 dos inúmeros motivos para você vir curtir o Auto… Toda a equipe está empenhada em trazer para você alegria e entretenimento cultural de qualidade.

O Contador vai acompanhar tudo. Até qualquer hora!

A ÂNCORA

POR FÁBIO CHAP

b2f42286-b464-4a0f-8447-302d799e81e1

Gláucia é uma menina. Tem 14 anos. É gorda. Bem gorda. É alta. Bem alta. Na escola, Gláucia não pode fazer nada, absolutamente nada sem que mexam com ela. O apelido de Gláucia é Âncora.

Gláucia tenta jogar vôlei na educação física:

– Saca logo, Âncora – gritou Marcos – ao que toda a turma caiu na risada.

Gláucia esperando na fila da merenda:

– Vai repetir 18 ou 19 vezes hoje, Âncora? – Perguntou Glédson com cara de ironia.

Ontem mesmo a professora de matemática precisou se ausentar por 3 minutos. A sala toda aproveitou pra fazer uma ‘Ôla’. Mas ao invés de gritarem ‘Ôla’, gritaram ‘Âaaaancoráaaa’. Gláucia chorou. Chorou de soluçar, precisou até sair da sala. Mas é final da 8ª série, tá acabando, Gláucia vai conseguir fugir dos apelidos, do bullying, dessa estupidez humana que é encontrar riso na humilhação do outro. Tenho certeza que no 1º ano do colégio tudo isso vai passar. Gláucia vai pra uma escola bem longe do Rubens Moreira da Rocha. A única maneira de essa humilhação ter continuidade é se Gláucia encontrar alguém da escola antiga na escola nova. Alguém que conte a todo mundo que o apelido dela era Âncora, que estimule outros a darem a risada da humilhação.

Estamos no ano de 2001. No finalzinho. Tá acabando a 8ª série. Força, Gláucia.

(…)

Chegamos em 2002. 1º ano do colégio. Gláucia tá de escola nova: Colégio Clóvis Beviláqua. Primeira vez da vida que Gláucia faz escola particular. Primeira vez do Fábio também. Fábio veio da mesma escola pública que Gláucia. Por motivos diferentes, mas ambos foram parar ali. Gláucia ficou com muito medo quando percebeu um aluno da outra escola na sua nova escola. Será que Fábio contaria tudo pra todos? Será que todo o bullying voltaria com tudo?

– Âaaancora, você por aqui. – Fábio disse na frente de boa parte da sala nova. A expressão de Gláucia se fechou por completo. Seu pior pesadelo voltou. Fábio passou a contar pros amigos recentes todas histórias relacionadas a Gláucia nos anos anteriores. Dia após dia a feição dela se fechava. Talvez, uma depressão que se encaminhava.

É meio de 2002 e Gláucia, desolada, abandona a escola nova. Desde então, Fábio nunca mais teve notícias dela.

E até 2014/2015 essa história toda jamais perturbou Fábio. Não havia lembranças, nem perguntas para si mesmo sobre o ocorrido que fez Gláucia desistir de estudar no colégio que havia escolhido. Poderia ter sido ele o responsável pelo suicídio de uma pessoa? Passou a se perguntar. Poderia ele, pelo riso fácil, pela piada escrota, ter reavivado demônios na cabeça de Gláucia? Começou a se indagar.

Eu, Fábio, escritor dessa crônica nunca mais tive contato com Gláucia. Ter feito uma auto-crítica profunda mais de 10 anos depois desse ocorrido me fez bem e mal ao mesmo tempo. Bem porque você pensa ‘Caralho, ainda bem que dá pra mudar isso. Dá pra evitar que isso aconteça com outras pessoas daqui pra frente.’ Mal porque é muito bad constatar o quanto a gente já fez mal pra outras pessoas nessa vida; muitas vezes sem nem nos tocarmos disso.

Gláucia, não sei se você está em SP, no Brasil, viva, morta. O que sei é que escrevi tudo isso – nos expondo – pra te pedir profundas e sinceras desculpas. Há uma probabilidade de 99% de você jamais ler isso, nem ficar sabendo desse post. Mas eu precisava falar sobre isso. Escrever sobre isso. Porque sei que um post desses por aqui tem potencial de causar outras reflexões por aí.

Sei também que não adianta só falar, só ‘voltar como o cão arrependido’. Como medida prática pra evitar a perpetuação do bullying que cometemos com você, vou ensinar a minha filha a jamais tratar as pessoas como te tratamos. A jamais expor as pessoas como expomos. Na criação da minha filha, o respeito à diversidade é e continuará sendo pauta principal.

Na minha criação não foi assim. Eu fui criado num regime em que a gorda (muito mais do que o gordo) era apontada como tosca.

– ‘Olha que coisa ridícula essa barriga pra fora. Não é muita falta de semancol ter esse corpo e usar uma roupa assim?’ – Era esse tipo de coisa (pra pior) que eu ouvia em família e, infelizmente, absorvi por muitos anos.

Hoje enxergo com muita clareza o estrago que a gordofobia faz na vida das pessoas. É só observar melhor pra perceber que são homens (principalmente mulheres) rejeitadas na educação física, na pegação, na vida pública simplesmente por serem gordas. Precisamos, urgente, falar sobre isso. O meu modo foi fazendo essa auto-crítica pública.

E aí, topam entrar na auto-crítica pública? A quem do seu passado você pediria desculpas por ter cometido bullying? O que você pretende fazer pra que o bullying que você cometeu não seja mais reproduzido por aí?

Eu acredito profundamente que dá pro mundo ser muito melhor. A gente parar de ser cuzão é um ótimo primeiro passo.

**