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O “PRIVILÉGIO MASCULINO” NA NUDE DE LÉO STRONDA

POR FÁBIO CHAP

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Caiu um nude do Leo Stronda na internet. Pra quem não o conhece, é um cara que fez (ou faz) um trabalho na música, faz vídeos de academia no YouTube e pratica o fisiculturismo.

Sem papinhos de ‘o sobrinho do tio do meu primo me contou’: eu vi o nude do cara. O cara tem um pau gigante. E o que aconteceu? A internet caiu de amores por esse acontecimento.

Leo Stronda tá de boa, fez piada com o fato de ter vazado a foto dele. Hoje ele vai dormir tranquilo no berço esplêndido de quem tá satisfeito consigo mesmo e não está sendo linchado e difamado na Internet. Muito pelo contrário. Ele está sendo ovacionado.

A pergunta pra você é: Quantas mulheres podem ter esse privilégio de caírem peladas na internet e serem ovacionadas?

Quantas mulheres – mesmo que lindas e gostosas – têm o privilégio de cair na internet peladas ou transando e depois podem tranquilamente fazer um post nas redes sociais fazendo piada com o ocorrido? Quase zero, né?

E é sobre esse fato que precisamos falar:

– Se cai o vídeo/foto de uma mina pelada ou transando, mesmo que ela tenha corpo escultural, isso acaba com a vida dela. Criam-se problemas na família, no trabalho e tais desdobramentos, por vezes, levam algumas meninas e mulheres ao suicídio.

– Se cai o vídeo/foto de um cara roludo na internet, ele faz um brinks com o fato de ter ‘3 pernas’, depois vai dormir na paz de Deus e tudo segue de boa, sem neurose alguma.

O nome disso é privilégio masculino. E privilégio não é xingamento, viu? É condição:

“Vantagem (ou direito) atribuída a uma pessoa e/ou grupo de pessoas em detrimento dos demais; prerrogativa.”

Entendamos que todo mundo tem suas ‘partes íntimas’: bunda, pau, buceta, cu, peitos e ninguém precisa ter sua vida destruída por fazer uso desses utensílios. Ninguém deve ser desqualificado por ter sua intimidade exposta.

O que aconteceu com Leo Stronda é o que deveria acontecer toda vez que vazasse nude de uma mulher: ou seja, não acontecer nada e vida que segue.

Ps: Quem registra/vaza foto/vídeo dos outros sem autorização é Cuzão com C maiúsculo e Criminoso com C mais maiúsculo ainda.

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SER ADULTO É DIFÍCIL

POR FÁBIO CHAP

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A gente não sabia que ser adulto era tão difícil assim, né? Um mergulho na desilusão com uma ou duas respiradas no triunfo – e olhe lá.

Viver é um quase-afogamento a cada ano, a cada mês. Duvido que o vocês versão adolescente tinha noção dessa porra de vida adulta. Eu também não tinha. E, por vezes, me pego pensando: a vida é muito mais que um livro de auto-ajuda de capa pomposa.

‘É só querer que você chega lá, campeão’ – vá tomar no cu.

Pra mim tá cada vez mais claro que a saída não é mais querer, mais vontades, mais desejos. É exatamente essa busca de saciar coisas vãs que nos fode. A saída é organizar a mente. Organizar a porra da mente. Aceitar o cinza do mundo. Mas sem necessariamente se deixar ser tragado por ele. Aceitar que o ser humano é sim tudo de ruim, mas, vez ou outra, vemos como ele pode ser tudo de bom. A saída é ler, ler, ler, se aprimorar, ler pra ser. Ler pra entender. Ler pra não surtar.

Quando a gente organiza a mente, a gente percebe que ninguém é mau, mas, também, que ninguém é bom. As pessoas são um eterno caminhar entre esses dois polos. Vão defender a elas mesmas, sobreviver; depois vão ver se têm tempo pra você.

Há o rancor, há o ódio, há a inveja, há a manipulação, há o comportamento de manada e não há nada que você possa fazer pra evitar isso.

Organiza tua mente. Ser adulto, ser gente é resistir. Quem não se prepara pra ficar de pé, que comece a se preparar pra cair.

Num mundo duro, seja a mente fluída, faça dos seus sonhos e da sua organização a tua saída e vai lá – não pra brilhar – mas pra voar e estar nutrido de forças pra consertar tuas asas.

Ser adulto é difícil, beira o impossível, mas você tem outra opção? Não! Então para de reclamar e vai à luta, caralho.

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O BUNDA-MOLE 2016

POR FÁBIO CHAP

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Já conhece o bunda-mole 2016? Pois deixe-me apresentá-lo a vocês.

O bunda-mole 2016 nunca tomou um enquadro, quanto mais um esculacho da Polícia, mas defende com unhas e dentes as agressões e homicídios da Corporação Militar porque ‘a gente não pode dar mole pra vagabundo’.

O bunda-mole 2016 teve uma infância recheada de PlayLand, Playmobil e Playstation, mas quando alguém diz pra ele: ‘então desce pro Play’, ele fala que vivência é papo de esquerdista.

O bunda-mole 2016 nunca foi nem nunca irá numa Manifestação Popular, porque se tiver bomba de efeito imoral e gás lacrimogêneo, é capaz dele traumatizar no primeiro estouro. Se um polícia olhar torto pra ele, então; nem dorme a noite.

O bunda-mole 2016 nunca conversou com uma mulher violentada, nem nunca viu bem de perto a mãe apanhar do pai, mas acha que a Violência Doméstica e a Cultura do Estupro não existem. Pra ele o que existe é um indivíduo isolado que pratica crimes. Que o feminismo é uma criação pra fazer a mulher dominar o homem.

O bunda-mole 2016 diz:

“Você deve lutar pelos direitos humanos! Mulheres são humanos? Negros são humanos? Homossexuais são humanos? Então ponto: você engloba uma classe toda! Não há por que segregar.”

Certamente esse bunda-mole pulou boas páginas de livros de história. Não leu nada sobre as Sufragistas, pouco (ou nada) do Movimento dos Direitos Civis dos Negros. Pra ele basta ser humano pra ser respeitado. Mas, adivinhe? O bunda mole é homem, branco e hétero. Ou seja, sabe tudo sobre ser desrespeitado apenas por existir, né?

O bunda-mole 2016 diz que o sobrenome italiano dele veio do Bisavô. ‘Vô Calligari que veio da Itália com uma mão na frente e a outra atrás e suou muito pra chegar onde chegou’. O bunda-mole nem desconfia que o Governo Brasileiro pagava a viagem de navio dos Imigrantes italianos. Nem desconfia que os imigrantes italianos, espanhois, alemães e japoneses tinham até um pequeno auxílio moradia enquanto os negros recém abolidos e desempregados por gerações se espalhavam pelos morros de terra infértil.

O bunda-mole 2016 sujou a mão de graxa só naquele dia que fez uma visita à fábrica do tio do interior, mas acha um absurdo essa coisa de CLT. Ele acha que o empregador tem sofrido muito no Brasil com essa enormidade de direitos trabalhistas.

O bunda-mole 2016 estudou numa escola pré particular, fundamental particular, ginásio particular, ensino médio particular e na hora da faculdade foi pra Universidade Pública, mas acha um absuuuurdo se um negro de escola pública estiver na sala dele por conta de cotas raciais reparatórias.

Mas hoje, finalmente hoje, o bunda-mole 2016 desistiu de ser bunda-mole. Decidiu que vai se matricular numa academia lá no Jardins e agora vai ficar com a bunda dura.

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EXISTE MOTIVO PRA VIRAR BANDIDO?

POR FÁBIO CHAP

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Acho que a galera – principalmente a classe média de esquerda – fantasia muito as motivações da bandidagem.

Um cara não vira ladrão apenas e simplesmente porque não tem o que comer. Porque não tem leite pra dar pro filho. Porque tá morando num barraco todo fudido, que enche d’água durante as chuvas.

O interesse pelo crime vai muito além da necessidade básica: comida, teto, bem-estar mínimo.

Os caras entram pro crime porque a sociedade esfrega na nossa cara – e consequentemente na deles – que carrão é importante pra sobreviver nessa selva de pedra. Que camisa com jacaré no peito é importante pra ser visto como alguém importante. Que cordão de ouro, moto do ano e celular de última geração são os objetos que os farão conseguir algum respeito onde vivem.

O cara fica desde a infância recebendo esses mísseis publicitários no meio da fuça. Aí ele vai pra escola pública e o muleke que pagou 900 reais num Nike – parcelado em 10 vezes – é o destaque do rolê. O outro que tem um cordão de ouro e um Juliet é cotadíssimo pela menininhas. O outro é buscado todo dia na porta da escola pelo primo que tem um Vectra lacrado no insulfim, tão rebaixado que mal sobe uma lombada. Aí a cabeça do cara obviamente vai juntar os pontos.

“Porra, é isso. Pra ser respeitado aqui nessa porra eu preciso de um Nike, um cordão, um Juliet e um Vectra”.

Só que aí ele olha pra própria vida e não vê a menor condição de atingir tais metas no curto, nem no médio prazo. O pai tá há 40 anos limpando privada na empresa dos outros e nunca conseguiu sair do lugar. A mãe tá há 30 anos fritando hambúrguer na chapa da padaria e nunca conseguiu sair do lugar. Com os avôs e avós foi a mesma coisa.

Aí ele olha ao redor e vê o Buiu – ex-melhor amigo – conseguindo 400 reais por semana só pra carregar uma pochetinha pra lá e pra cá. Ele vê o Marquinho ganhando 1600 reais por semana só pra fazer o transporte de umas carga diferente vinda do Mato Grosso pra SP. Não precisa ser gênio pra perceber que o cara fica absolutamente tentado a optar pelo caminho mais fácil pra buscar o respeito que ele tanto quer.

E ninguém me contou tudo isso, não. Eu vi o crescimento desse ‘fenômeno’ da ostentação com meus próprios olhos estudando nas escolas que estudei, morando nos bairros que morei. Eu perdi amigos, colegas e vizinhos pra vida loka e nenhuma teoria me fala mais do que o que eu vi acontecer no meu entorno.

‘Aiii, mas meu vô veio da favela trabalhou a vida toda e hoje é um exemplo de honestidade pra gente da família.’

Filhote, o mundo não é seu vô. Nem todo mundo tem a resistência do seu vô pra trabalhar por 30/40 anos em situações que beiram a humilhação.

É fácil falar ‘não reaja’ tendo sucrilhos no prato todo dia pela manhã. É fácil concluir tudo sobre o caráter alheio e nunca se importar em analisar a bomba publicitária jogada no colo de cada um de nós.

“Coooompre. Coooompre. Tenhaaa. Tenhaaa. Ostenteee. Ostenteee.”

Aí depois de 20 anos que o cara ficou ouvindo que ele só seria gente se pudesse comprar, ter e ostentar, você vai falar pro cara ser?

Vinte anos depois ele quer que se foda o seu ‘ser’, ele quer mais é ter.

E isso torna o cenário muito mais complexo do que se o problema da segurança pública fosse só os mortos de fome, os sem teto. O problema da segurança pública hoje é totalmente ligado aos nossos fetiches de consumo como sociedade.

Por isso, sai dessa de pensar que na maioria das vezes o ladrão te passa a rasteira porque tá com fome, porque tá desesperado, que vai torrar tudo em crack. É muito além disso. O cara te rouba porque também quer comer Nutella. Também quer fazer rolê na moto do ano. Também quer, um dia que seja, comer a mais gostosa da noite brindando com Black Label. Também quer piscina no fundo do quintal. Também quer comer picanha até passar mal.

De muito pouco vai adiantar avançarmos o debate sobre segurança pública sem falarmos sobre ostentação privada.

Se hoje a festa é sua, a festa é nossa, saiba que antes de ser ladrão, tudo o que o cara queria era um pedaço do bolo que tanto esfregamos na cara dele.

Se eu tenho pena de bandido? Nenhuma. Cadeia tem que ser o destino de quem entra pro crime. A minha tentativa aqui é de compreender o que acontece 10/15 anos antes de ele enfiar um .38 na minha ou na sua cara.

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SOBE UM NÚMERO, CAI UM PAI

POR FÁBIO CHAP

Eu só queria tá lá.
Queria vê a carinha dela nesse Natal quando ganhasse o carrinho que ela pediu o ano todo.

Nesse mundo louco, o que sobra pra gente é o legado. O que a gente deixa marcado no coração de um filho, sabe?

Só que não deu tempo de saber por onde ela vai caminhar.

‘Mil cairão ao teu lado, dez mil à tua direita. Mas tu não serás atingido.’ – diziam isso, né.

Mas quando é de fuzil, perfura, transpassa. E a dor, puta que o pariu, meu parça. É a maior do mundo.

A dor de nunca mais ver aquela bochecha, aquela carinha, afff. Não dá pra descrever.

Eu só queria tá lá, mas eu não tô.

E nunca mais – eu vô tá.

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Só esse ano 102 policiais já foram mortos nessa guerra insana. Pra uns, sobe um número; pra outros, cai um pai.

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[fábio chap]

JÚLIA

POR FÁBIO CHAP

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Júlia não aguentava mais: suicidou na frente dos pais. Quando criança, Júlia adorava vestidinhos rosa. Adorava pular, brincar, principalmente com Antônia, sua boneca desbotada que a mãe Paula guardava bem fundo no armário, mas nunca jogava fora.

Só que ela cresceu e a boneca ficou pra trás. Foi pra escola e nunca teve muita paz. Teve uma época em que Júlia queria dar um beijo na boca do Pedro. Não era tão cedo. Ela já tinha quinze. Ele nunca soube. Júlia nunca contou. Pedro a odiava, mesmo assim Júlia jurava que nunca havia sentido nada parecido.

Júlia, embora chorasse diariamente, sonhava com o futuro, construir uma casa sem muro – quem sabe um lar – viver à beira mar; ser tão feliz que da vida pediria bis. Mas as coisas não eram simples assim. O pai de Júlia era muito violento; batia nela a todo momento. Por vezes ficavam marcas. Por vezes havia sangue. Por muitas vezes havia nela um desejo incontrolável de dar fim em tudo. Nessas horas o pai de Júlia não ficava mudo. Agredia física e verbalmente. Dizia que ‘isso não era coisa de gente de bem; era coisa do Diabo, de quem não tem vergonha na cara’.

E olha que o pai de Júlia foi um cara bem liberal na adolescência. Fumou suas maconha, cheirou seus pó, transou sem dó por tudo quanto é lugar. Mas ‘da família ele havia de cuidar’. Na família que suou pra construir e sustentar ele não permitiria ‘pouca vergonha’; palavras dele próprio.

Mauro era covarde. Mas percebeu isso muito tarde. Júlia, sua filha, não estava feliz ou contente com o corpo que tinha, muito menos com as cintadas e socos que recebia. Júlia tinha uma tia que a entendia. A única pessoa do mundo que a entendia. Foi essa tia que escolheu seu nome, mas nunca ligou muito pra isso. Ela escolheu Tiago, mas Tiago nunca chegou a nascer; nasceu a Júlia, muito embora Júlia tivesse um pênis antes de morrer.

Paula e Mauro agora velam um Tiago que nunca existiu. Só que todos ouviram Mauro dizer em frente ao caixão:

– ‘Minha filha, por quê você partiu? Não, não (…) NÃO.’

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A ÂNCORA

POR FÁBIO CHAP

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Gláucia é uma menina. Tem 14 anos. É gorda. Bem gorda. É alta. Bem alta. Na escola, Gláucia não pode fazer nada, absolutamente nada sem que mexam com ela. O apelido de Gláucia é Âncora.

Gláucia tenta jogar vôlei na educação física:

– Saca logo, Âncora – gritou Marcos – ao que toda a turma caiu na risada.

Gláucia esperando na fila da merenda:

– Vai repetir 18 ou 19 vezes hoje, Âncora? – Perguntou Glédson com cara de ironia.

Ontem mesmo a professora de matemática precisou se ausentar por 3 minutos. A sala toda aproveitou pra fazer uma ‘Ôla’. Mas ao invés de gritarem ‘Ôla’, gritaram ‘Âaaaancoráaaa’. Gláucia chorou. Chorou de soluçar, precisou até sair da sala. Mas é final da 8ª série, tá acabando, Gláucia vai conseguir fugir dos apelidos, do bullying, dessa estupidez humana que é encontrar riso na humilhação do outro. Tenho certeza que no 1º ano do colégio tudo isso vai passar. Gláucia vai pra uma escola bem longe do Rubens Moreira da Rocha. A única maneira de essa humilhação ter continuidade é se Gláucia encontrar alguém da escola antiga na escola nova. Alguém que conte a todo mundo que o apelido dela era Âncora, que estimule outros a darem a risada da humilhação.

Estamos no ano de 2001. No finalzinho. Tá acabando a 8ª série. Força, Gláucia.

(…)

Chegamos em 2002. 1º ano do colégio. Gláucia tá de escola nova: Colégio Clóvis Beviláqua. Primeira vez da vida que Gláucia faz escola particular. Primeira vez do Fábio também. Fábio veio da mesma escola pública que Gláucia. Por motivos diferentes, mas ambos foram parar ali. Gláucia ficou com muito medo quando percebeu um aluno da outra escola na sua nova escola. Será que Fábio contaria tudo pra todos? Será que todo o bullying voltaria com tudo?

– Âaaancora, você por aqui. – Fábio disse na frente de boa parte da sala nova. A expressão de Gláucia se fechou por completo. Seu pior pesadelo voltou. Fábio passou a contar pros amigos recentes todas histórias relacionadas a Gláucia nos anos anteriores. Dia após dia a feição dela se fechava. Talvez, uma depressão que se encaminhava.

É meio de 2002 e Gláucia, desolada, abandona a escola nova. Desde então, Fábio nunca mais teve notícias dela.

E até 2014/2015 essa história toda jamais perturbou Fábio. Não havia lembranças, nem perguntas para si mesmo sobre o ocorrido que fez Gláucia desistir de estudar no colégio que havia escolhido. Poderia ter sido ele o responsável pelo suicídio de uma pessoa? Passou a se perguntar. Poderia ele, pelo riso fácil, pela piada escrota, ter reavivado demônios na cabeça de Gláucia? Começou a se indagar.

Eu, Fábio, escritor dessa crônica nunca mais tive contato com Gláucia. Ter feito uma auto-crítica profunda mais de 10 anos depois desse ocorrido me fez bem e mal ao mesmo tempo. Bem porque você pensa ‘Caralho, ainda bem que dá pra mudar isso. Dá pra evitar que isso aconteça com outras pessoas daqui pra frente.’ Mal porque é muito bad constatar o quanto a gente já fez mal pra outras pessoas nessa vida; muitas vezes sem nem nos tocarmos disso.

Gláucia, não sei se você está em SP, no Brasil, viva, morta. O que sei é que escrevi tudo isso – nos expondo – pra te pedir profundas e sinceras desculpas. Há uma probabilidade de 99% de você jamais ler isso, nem ficar sabendo desse post. Mas eu precisava falar sobre isso. Escrever sobre isso. Porque sei que um post desses por aqui tem potencial de causar outras reflexões por aí.

Sei também que não adianta só falar, só ‘voltar como o cão arrependido’. Como medida prática pra evitar a perpetuação do bullying que cometemos com você, vou ensinar a minha filha a jamais tratar as pessoas como te tratamos. A jamais expor as pessoas como expomos. Na criação da minha filha, o respeito à diversidade é e continuará sendo pauta principal.

Na minha criação não foi assim. Eu fui criado num regime em que a gorda (muito mais do que o gordo) era apontada como tosca.

– ‘Olha que coisa ridícula essa barriga pra fora. Não é muita falta de semancol ter esse corpo e usar uma roupa assim?’ – Era esse tipo de coisa (pra pior) que eu ouvia em família e, infelizmente, absorvi por muitos anos.

Hoje enxergo com muita clareza o estrago que a gordofobia faz na vida das pessoas. É só observar melhor pra perceber que são homens (principalmente mulheres) rejeitadas na educação física, na pegação, na vida pública simplesmente por serem gordas. Precisamos, urgente, falar sobre isso. O meu modo foi fazendo essa auto-crítica pública.

E aí, topam entrar na auto-crítica pública? A quem do seu passado você pediria desculpas por ter cometido bullying? O que você pretende fazer pra que o bullying que você cometeu não seja mais reproduzido por aí?

Eu acredito profundamente que dá pro mundo ser muito melhor. A gente parar de ser cuzão é um ótimo primeiro passo.

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CARLOTA

POR FÁBIO CHAP

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Carlota não aguentava mais o que via. Sentia que tava tudo afundando, sabe? O namoro foi pra casa do caralho. A mãe, depois de velha, estava, dia a dia, se tornando alcoólatra. Foda isso. O pai bateu numa enfermeira no asilo. O filho não a respeitava. Idolatrava o pai ausente e humilhava a mãe sempre presente, mas sempre tão fraca pra impor respeito.

Carlota via que não tinha jeito. Teria de dar um fim naquilo tudo. Suicídio. É disso mesmo que eu tô falando. Não tinha arma em casa, tampouco coragem de acabar com a vida na ponta de uma faca. ‘Remédio? Vai que eu só passo mal pra caralho e não morro.’ – ela pensava. Carlota cogitou comprar uma arma de brinquedo e sacar na frente de um carro de polícia. ‘Mas vai que eles só atiram na minha perna e eu fico presa por 10 anos conhecida como a idiota que sacou uma arma de brinquedo em frente a uma viatura?’

A vida era pura agrura. Carlota havia emagrecido 9kg no último ano. Seu plano, ultimamente ela levar uma vida minimamente digna, decente. Comer melhor, dormir melhor, trepar, sei lá, duas vezes no ano pelo menos. Mas ela transava muito menos que isso. A última vez foi em 2013. Haja dedo e calcinha pro lado. Carlota havia até enjoado de masturbação. 46 anos e uma puta vida de cão.

A melhor amiga de Carlota era Brenda, uma garota de 19 anos que ela só conhecia pela internet. O filho de Carlota desconfiava que Brenda dava em cima da mãe e começou a ameaçar a menina.

– Vadia, vai colar esse velcro nojento na puta que te pariu. Deixa a minha mãe em paz. – ele gritava pelo teclado.

– Você é louco, mulek. Eu sou a única que dá atenção pra sua mãe. Se não fosse por mim, ela já tinha se matado. Eu tenho namorado, você me respeita.

E assim, de treta em treta a vida seguia. E isso não significa que havia qualquer tipo de alegria. Era um inferno mesmo. O fato de ela ter um nome tipo Carlota talvez amenize pro leitor – nome engraçadinho, né? – mas não diminui em nada o horror da vida dela. O que ela mais queria era uma saída. Ninguém quer morrer, sofrer, a gente só quer a porra de uma saída.

O filho decidiu intimidar Brenda pessoalmente. A mãe caiu doente de cachaça dentro de casa. O pai precisava ficar amarrado dentro do asilo pra não agredir as pessoas que por ali estavam e passavam. Caos total.

3 de Dezembro de 2016 – Carlota decide abandonar tudo. Não teve luto. Não teve 50kg de bagagem. Pegou as roupas do corpo, comprou uma passagem pra casa da irmã que mora no interior do Paraná e foi pra lá. Sem nem avisar. Chegou dizendo que tava sofrendo demais. Tendo que dar conta de tudo sozinha. A irmã Carolina cagou e andou. Não era problema dela. Já tinha fugido pro Paraná que é pra não escutar um pio dessa família doente. O cunhado, que até então Carlota não conhecia, era Gerson. Um instalador de tv a cabo não muito preocupado com o mundo ao redor. Mais distraído, impossível. Gerson foi o único que tratou Carlota bem. Oferecia café e até cigarro. Tratou bem até demais. Certamente estava querendo comer a cunhada. Carolina, a irmã, não tava legal com aquela situação toda. Carlota era muito mais bonita que ela. ‘Um perigo uma mulher dessas dormir aqui em casa e acabar com o casamento dos outros.’ – pensava sobre a própria irmã.

6 de Dezembro de 2016 – Carlota volta pra São Paulo e seus olhos não poderiam estar mais inchados de tanto chorar. Ontem a noite acordou no meio da madrugada com o cunhado deitado ao lado e sorrindo. Passou a mão na cara e sentiu algo estranho. Reconhecia aquele cheiro. Gerson havia batido uma e gozado no corpo e no rosto de Carlota enquanto ela dormia.

7 de Dezembro de 2016 – Uma ambulância acelera em pleno Vale do Anhangabaú. Dentro dela a mulher que apresentei a vocês nessa história. Um paramédico dizia ao outro:

– Os batimentos estão ok. Pulso ok. O viaduto não era tão alto. Ela vai aguentar.

Bem, aguentar é o que Carlota tem feito toda a vida. Dessa vez, tudo que ela não queria era esse maldito verbo: aguentar.

5 minutos atrás saiu o resultado do exame mais importante: uma fratura seríssima na 14ª vértebra.

Carlota está, oficialmente, paraplégica.

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Sobre o autor: Fábio Chap é escritor, roteirista e colunista. Já tem obras publicadas como “Tive Um Sonho Pornô” e divulga seu trabalho nas redes sociais. O Contador tem o prazer de republicar alguns dos seus contos que sempre remetem a problemas sociais e reflexões sobre comportamento e vida.

BIBLIOTECA É INAUGURADA EM SÃO MIGUEL DO GOSTOSO

A “Indústria do Conhecimento” foi inaugurada pelo presidente do FIERN em parceria com a prefeitura municipal.

POR AILTON RODRIGUES
SÃO MIGUEL DO GOSTOSO/RN

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IC é inaugurado em Gostoso (Foto: Heldene Santos).

Se a educação é um dos únicos meios de mudar a realidade social de um país, o que dizer dos seus efeitos em um município. Sobre isso, Gostoso deu um passo importante ao inaugurar uma biblioteca denominada de Indústria do Conhecimento (IC) nesta última sexta-feira (19).

As unidades SESI Indústria do Conhecimento são centros multimeios, contendo biblioteca, DVDteca, CDteca, gibiteca e Internet, onde os usuários terão a oportunidade de acesso à informação e à apropriação do conhecimento.

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Prefeita Maria de Fátima inaugura biblioteca (foto: Heldene Santos).

A inauguração da unidade gostosense teve a presença da prefeita Maria de Fátima, do presidente do FIERN e diretor do SESI, senhor Amaro Sales, além do padre João Maria.

“Que a motivação dos jovens pelos Pokemons, seja igualmente aqui pela busca do conhecimento” – declarou Pe. João Maria.

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Espaço interno do IC (Foto: Heldene Santos).

A programação deste centro multimídia começa na próxima segunda-feira (22) e está localizado na Rua Lírios do Mar, ao lado da Escola Estadual Olímpia Teixeira.

O Contador segue de olho. Até qualquer hora!

Fonte e fotos: Heldene Santos.

SECRETÁRIA DE TURISMO COMENTA SOBRE SUCESSO DO FLIGOSTOSO: “O BALANÇO FOI POSITIVO”

Em depoimento ao Contador Janielle Linhares ainda comentou sobre o que ela espera da próxima edição, mas diante da corrida política que se aproxima ela comenta: “não posso afirmar”.

POR AILTON RODRIGUES
NATAL/RN

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Cortejo do FliGostoso 2016 teve grupos culturais como o Boi de Reis.

A Secretária de Turismo de São Miguel do Gostoso fez um balanço sobre o Festivla Literário de Gostoso (FliGostoso) que aconteceu no último fim de semana no município e o resultado foi positivo na sua avaliação.

“O balanço foi positivo. Atingimos nossa meta que era atender o público infanto-juvenil e conseguimos ir até além com o envolvimento dos adultos nos três dias de evento. Pais e mães vieram com seus filhos e se encantaram com o que assistiram” – Disse Jane.

Questionada sobre uma próxima edição, Jane foi cautelosa e preferiu apenas sugerir mudanças admitindo não saber se estaria na próxima gestão:

“Se estivesse [na próxima gestão] iria buscar ampliar para o público adulto, para que assim pudéssemos trazer escritores, artistas e apresentações culturais voltadas para este público. Isso possibilitaria trazer mais turistas e movimentar a economia local”, declarou.

Mas foi evidente o sucesso do FliGostoso com a inserção de grandes atrações literárias o município viveu dias mágicos e brindado com o belíssimo cortejo de encerramento.

O Contador de Causos segue de olho. Até qualquer hora!!