BAGAGEM, DE ADÉLIA PRADO

Olá, Amigos do Contador de Causos!

Hoje trago uma dica de leitura do livro estreia dessa poetisa mineira Adélia Prado!

Recomendo.

Bagagem, Adélia Prado

A obra é repleta de poemas que despertam emoções nos leitores e que, segundo a própria autora, nasceram não só de um processo criativo, mas também de experiências pessoais regadas de tristeza, sofrimento e angústia. Além disso, a temática religiosa é muito recorrente no livro, já que a poetisa retrata a fé como um pilar da vida e das sociedades humanas. Essa relação com a religiosidade não está restrita a questões de sagrado e de divindades, mas se estende para uma análise do bem e do mal, do lado bom e do lado ruim das coisas.

AS MORTES SUCESSIVAS

Quando minha irmã morreu eu chorei muito
e me consolei depressa. Tinha um vestido novo
e moitas no quintal onde eu ia existir.
Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.
Tinha uma perturbação recém-achada:
meus seios conformavam dois montículos
e eu fiquei muito nua,
cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.
Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.
Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,
parentes, que me lembrassem sua fala,
seu modo de apertar os lábios e ter certeza.
Reproduzi o encolhido do seu corpo
em seu último sono e repeti as palavras
que ele disse quando toquei seus pés:
‘deixa, tá bom assim’.
Quem me consolará desta lembrança?
Meus seios se cumpriram
e as moitas onde existo
são pura sarça ardente de memória.

                                                                                                                                                           Fonte: Canal do Ensino