Avanço do mar deve afetar costa litorânea de São Miguel do Gostoso nos próximos anos, afirma professor da UFRN

Segundo professor da UFRN, até 2030 o recuo da linha de costa vai variar de 70 a 120 metros, afetando não só os terrenos de Touros, mas também de São Miguel do Gostoso.

Por Mirella Lopes

Praia de Tourinhos em São Miguel do Gostoso – Foto: Mirella Lopes

São Miguel do Gostoso pode ter sua costa drasticamente alterada nos próximos anos, a afirmação é proveniente de estudos onde apontam que praias vizinhas, que estão passando pelo mesmo processo de erosão visto em Ponta Negra, ao começarem a construir barreiras rígidas, jogam o avanço do mar para as cidades vizinhas, nesse caso, São Miguel do Gostoso será um dos principais afetados.

Um trecho que chama atenção é aquele que vai de Touros a Caiçara, passando por São Miguel. Mais recentemente passamos a perceber que o processo erosivo lá é muito alto. Muitos empreendimentos, como condomínios de luxo, foram orientados a não construir próximo ao limite do terreno e houve um processo de recuo, mesmo assim, o mar avançou e já houve perda de vários hectares”, relata o professor de Engenharia Civil e Ambiental da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) Venerando Eustáquio Amaro.

O professor contabiliza que as taxas de erosão na região estão entre as mais altas do Rio Grande do Norte. Enquanto a média mundial de perda em praias arenosas é de meio metro por ano, na região setentrional do estado as perdas têm sido de cinco a seis metros por ano. A perda da área de praia pelo avanço do mar no RN nessa região varia de 42 as 60 hectares em até 20 anos.

Muitos dos terrenos que eram recuados, agora estão ameaçados. Isso é muito importante porque caso no presente ou futuro optem por algum tipo de solução de engenharia para se proteger do avanço do mar, se resolverem optar pelo que a gente chama de ‘enrijecimento de praia’, que é o que fizeram em Ponta Negra, colocar rocha, fazer muro de arrimo, sem estudos apropriados, podem acelerar a erosão para as praias de São Miguel do Gostoso, que também está em processo de erosão, mas ainda pouco perceptível” conta Venerando.

Terreno entre Touros e Gostoso – Foto: cedida

Ainda hoje, São Miguel do Gostoso é conhecida por ter praias com centenas de metros de extensão, mas que já começam a sentir o efeito do avanço do mar.

Na chamada Ponta de Santo Cristo era um trecho muito extenso. Pra gente andar da costa até o mar era coisa de 400 metros a 500 metros, era um negócio imenso. Ninguém percebeu, porque ninguém ia andar meio quilômetro pra chegar no mar no meio do sol quente, mas com o tempo, essa praia foi se reduzindo. À medida que a erosão ia acontecendo sobre ela, ia alimentando a praia da Xêpa e aquela prainha que fica na frente de São Miguel, esse foi um trecho que ficou muito preservado nos últimos 50 anos, mas que agora não está estável”, alerta Venerando, que calcula que obras de enrijecimento das praias à leste vão acelerar a erosão em São Miguel do Gostoso.

Uma história que se repete

O professor da UFRN aponta que a história que está acontecendo em São Miguel do Gostoso é semelhante ao que já foi visto em Pipa e Ponta Negra. Sem planejamento dos gestores, cada dono de resort, pousada e condomínio vai tomar suas próprias decisões para se proteger do avanço do mar, sem uma coordenação que oriente por uma solução coletiva e menos danosa.

A cidade não avalia essas questões, joga todo o processo erosivo para cima da praia e a gente vai ver o que estamos vendo em Natal em dez anos. Acreditamos que para 2030, o recuo da linha de costa vai variar de 70 a 120 metros, afetando não só os terrenos de Touros, mas também de São Miguel do Gostoso. Os donos desses terrenos vão buscar uma solução e como são empreendimentos importantes, o pessoal pode buscar uma obra de engenharia não muito adequada para proteger o terreno do avanço do mar”.

Em um dos casos, o professor Venerando explica que as casas de um loteamento foram recuadas ao máximo, mesmo assim, o avanço do mar levou 20% do terreno e, agora, as casas estão ameaçadas.

Para solucionar o problema, o pesquisador da UFRN aconselha que os proprietários e empreendedores não adotem medidas isoladas e que procurem o órgão para uma solução coletiva, algo que seria inédito no Rio Grande do Norte.

O que aconselho é que eles não tomem uma solução isolada porque vai virar uma bagunça e não vai conter o processo erosivo. O negócio é juntar todos os ameaçados e aqueles que estão em risco em um consórcio e buscar uma solução junto com o gestor público. Eles precisam de uma solução mais robusta e não de medidas isoladas, o que é um desafio“.

Nós continuamos de olho.

Original: https://saibamais.jor.br/2025/02/avanco-do-mar-em-areas-vizinhas-ameaca-praias-de-sao-miguel-do-gostoso/

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Autor: Ailton Rodrigues

Técnico em Informática (IFRN), que adora esportes e jornalismo, estando sempre disponível para bons papos. Coordenador de Comunicação do clube de futebol TEC (Tabua Esporte Clube), membro do Conselho do Coletivo de Direitos Humanos, Ecologia, Cultura e Cidadania (CDHEC), comunicador da Mostra de Cinema de Gostoso. Formado em Pedagogia (UFRN).

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