Filme cinebiográfico sobre Amy Winehouse soa como desrespeito a história de uma das maiores cantoras que vimos. Ao tratá-la como objeto, obra traz muito pouco do fenômeno que ela foi.
Por Ailton Rodrigues

A nostalgia das canções entoadas pro Marisa Abela que vive Amy Winehouse em Back to Black (2024) não salva o filme de soar como uma peça publicitária e trata uma das maiores artistas que vimos como um objeto.
Só para termos uma noção, o pai e o marido de Amy aqui são tratados quase como santos, como se a própra Amy fosse o problema que tenha sugado eles para o buraco negro da sua existência. A história contada não é assim e para quem assistiu o excelente Amy (2015) viu que esses personagens foram importantes para que ela se afundasse ainda mais nas suas dores.
Não quero dizer aqui que ela foi uma vítima, mas o filme deixa uma injustiça absurda colocando tudo como se fosse sua culpa. O tratamento da imprensa com Amy sempre foi ríspido, há cenas que não reconhecemos nem isso, a mãe é ignorada, a avó ganha mais destaque e ainda há uma provável gestação do seu ex-marido com outra mulher que aparenta ser um dos fatores que a levaram para ruína… Em resumo: parece que a direção de Sam Taylor-Johnson e o roteiro de Matt Greenhalgh odeiam a Amy.

Faltou se mostrar mais a genialidade e a autodestruição de Amy sendo retratada na tela. Confesso que a cena dela ganhando o Grammy 2008 foi a mais linda e nostálgica do filme, mas nem isso salva de tudo se tornar superficial demais.
Uma menina de 19 anos compor canções com o primor e domínio da linguagem como ela tinha, mas nos deixar em pleno vigor aos 27 anos com tamanha personalidade dá a impressão que ficamos órfãos de uma potência. Em nenhum momento o filme nos mostra essa sensação, é uma obra vazia.
Back to Black (2024)
- Nota: 1
- Duração: 107 minutos