O CONTADOR LEU: REPETECO, DE BRYAN LEE O´MALLEY

por AIRIS VITAL

Por toda minha infância fui atraída por animação e o meu amor pela leitura sempre foi nítida. Desta forma, os livros de quadrinhos eram os que faziam meus olhos brilharem. O preto e branco, os cheios de cores vibrantes que me incentivava, a ser mais exigente na hora de colorir. A leitura me levou a reviver esses momentos, na qual não consegui larga-lo até alcançar o fim.

Mas devo confessar que esse apego a leitura em quadrinhos nunca foi devidamente alimentado, confesso que não tenho motivos aparentes para justificar, pois a leitura ilustrada estimula extremante a sonoridade dos pensamentos, os elementos se movem durante a cada caixa de diálogo lida.

Você se sente uma maquininha de manipular os personagens, como se fosse capaz de pausar instantaneamente cada movimento e pensamento deles, isso é muito divertido. Para falar a verdade a leitura permite esse poderio.

Repeteco conta a história de uma mulher (Katie) que possui dentro de si, o desejo de empreender e para isso conta com pessoas que se tornam seus amigos visando realizar o sonho, um objetivo tangível. Mas para que isso venha acontecer, ela precisa conciliar seus projetos profissionais com o pessoal. Em um âmbito onde estes mesclam com muita consistência, que ela não consegue e principalmente, não quer enfrentar.

Medrosa, egocêntrica, orgulhosa são adjetivos que a personagem veste, até aprender a lidar com as consequências de suas escolhas. E até que isso venha ser posto em prática, ela precisa lidar com o fato de que todas as circunstâncias vivenciadas no cotidiano são responsáveis pela construção do seu futuro. Desde da palavra dita, até o silêncio… ouvindo a percepção dos fatos através das pessoas que estão a volta.

Katie é uma mulher destemida e confiante na vida mais isso não impede que ela erre. Seus erros são tentativas frustrantes de ser perfeita. É então que a oportunidade para ela alterar o que deu errado, chega como uma receita. E quem assim não faria o mesmo? Se acaso chegassem até você, uma caderneta dizendo:

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[Ilustração da caderneta e as instruções] página 52

Na verdade, quem nunca chegou ao fim do dia dizendo “eu devia ter.…”?! Quantas vezes não desejamos retirar uma opinião que foi mal interpretada? Lidar com as paixões, amigos, vida profissional e nossos monstros interiores requer, saber lidar com as renúncias e a ansiedade. É então que ela passa a querer manipular as oportunidades e consequentemente o tempo… exagerando na receita, em busca das escolhas perfeitas, se perde ao longo das consequências dos seus atos. E não podia ser diferente o ditado diz, tudo em excesso faz mal. Precisamos ter em mente que o tempo não é delimitado por nós, mais ele passa, ele chega.

Entre os personagens identifico papéis importantes e conclusivos para Katie e seus amigos, como:

Só permaneceu na vida de Max, por que havia reciprocidade no que sentiam. A amizade com Hazel, fez ela entender que não podia permitir que o tempo dissolvesse as relações importantes, e preservar com carinho os laços que queriam surgir. Andrew e Raymond, o quanto valorizar os vínculos que se construiu é a base e estratégia para realizar nossos objetivos. A convivência com Arthur, que não podia insistir, implorar, alimentar relações unilaterais. E a Liz que aparentemente simboliza a vida, fez ela entender que a vida é reciproca com quem se trata bem.

O Bryan faz uma analogia incrível para o leitor internalizar essa problemática, que em minha percepção é a seguinte: Nós somos uma planta que a medida que tomamos nossas escolhas criamos ramificações (galhos) que ao longo do tempo se fortificam, uns perto outros longe de seu tronco, mais sempre conectados, dando resistência ou não ao que construímos.

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[Ilustração da árvore] pagina 189 a 190

Para ajudar melhor na compreensão é como se cada ponto de luz fossem as possibilidades. As escolhas se tornam o caminho que gera o galho e/ou tronco, maiores ou menores. Capazes de aninhar o que construímos ou participamos ao longo do nosso desenvolvimento humano, seja o clube de futebol, escoteiros, o grupo de amigos inseparáveis no médio, o grupo de teatro na adolescência, a irmandade que você deixou na faculdade, a família… tudo pertence há algo maior, a grande arvore que você é, tornando-se resistente. Podar esses galhos é apagar a oportunidade que te permitiu errar e evoluir. Impedindo de entender o fim de um tempo, a desistência de planos, a frustração de expectativas, ou seja, te tornar uma pessoa capaz de enfrentar as tempestades que surgirá, como a forte nevasca que mostra a grande fragilidade da protagonista, no livro.

Precisamos está consciente das nossas escolhas e do percurso que segue a oportunidade abraçamos. E finalizo minhas perspectivas compartilhando o recado do próprio livro:

“Que Deus me dê SERENIDADE para aceitar as coisas que não posso mudar, CORAGEM para mudar as que posso, e SABEDORIA para reconhecer a diferença”.

 

O contador, Indica! 😉

Livro: Repeteco Título Original: Seconds Editora: Quadrinhos na CIA. Ano de Publicação: 2016 Edição: 1ª Edição ISBN: 978-85-359-2812-9 Páginas: 335

 

A DIVULGAÇÃO ATABALHOADA DA PF CRIOU MAIS PÂNICO DO QUE DEVERIA

POR ALEXANDRE VERSIGNASSI
DA SUPERINTERESSANTE

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Foto: Grandriver/iStock 

O Brasil levanta US$ 14,5 bilhões por ano com exportação de carne. Temos mais cabeças de gado no país (215 milhões) do que gente (204 milhões). Levando em conta que imposto sobre exportação é de 30%, o governo recebe tanto dessa indústria a cada TRÊS MESES quanto ganhou com a última rodada de privatização de aeroportos (US$ 1,2 bi).

Tudo isso só mostra o quanto a operação Carne Fraca é importante. Melhor que a indústria leve um safanão de uma vez do que vê-la perder mercado gradativamente, até que o Brasil volte à hoje inimaginável situação de importador líquido de carne.

A operação é valiosa. Ponto. Mas não dá para dizer o mesmo da forma como ela foi divulgada pela Polícia Federal. O atabalhoamento colocou no mesmo barco frigoríficos pêgos vendendo carne estragada com outros que nem chegaram a ser acusados disso.

E tem o caso do papelão. Agora, que vários técnicos de universidades já foram ouvidos, está claro que se foi um mal entendido da Polícia Federal. Tudo leva a crer que, de fato, não existe carne com papelão – para começar, ele faria a carne apodrecer mais rápido, o que só traria prejuízo para a indústria. Só tem um problema: a maior fonte de informação de boa parte dos brasileiros não é nem o Facebook. São os memes de internet. E a ideia da carne com papelão é matéria-prima perfeita para memes de primeira linha, como você tem visto no Whatsapp.

A PF nunca foi tão atuante, e importante, para o País. O problema é que isso parece ter contaminado parte do bom senso da instituição. A divulgação da Carne Fraca na sexta-feira precisava de um técnico que fosse para tirar dúvidas da imprensa – e do público. Pintar virtualmente todos os produtores de carne do país como bandidos, questionar a qualidade de toda proteína animal brasileira e criar novas lendas urbanas, do papelão na carne à ideia de que toda carne produzida no Brasil está condenada, mancha parte do que a operação tem de bom.

Os efeitos deletérios para a economia já começam a vir: a Coreia do Sul já barrou nosso frango, China e Chile, nossa carne, e a União Europeia planeja suspender os frigoríficos investigados. Nada disso significa que uma divulgação mais madura da PF evitaria esses bloqueios. O mercado de proteína animal é tão sensível a questões sanitárias que mesmo se o anúncio fosse feito por uma bancada de cientistas, como o devido cuidado para não gerar informações falsas, nossa carne de exportação acabaria pagando o pato do mesmo jeito. Mas nada justifica a proliferação de exageros e erros. Aí já é papelão.

ORIGINAL: http://super.abril.com.br/blog/crash/a-divulgacao-atabalhoada-da-pf-criou-mais-panico-do-que-deveria/