Globoplay aposta em uma série que mergulha no lado obscuro do futebol, exagera na fórmula (inclusive nas cenas de sexo), mas encontra no entretenimento e na atuação de Cauã Reymond seus principais trunfos..
Por Ailton Rodrigues

Se fosse preciso resumir Jogada de Risco em poucas palavras, o diagnóstico seria curioso: não é uma série de roteiro brilhante, tampouco uma produção que pretende reinventar a televisão brasileira. Em alguns momentos, inclusive, exagera no tom e flerta abertamente com o melodrama. Ainda assim, há uma característica que se impõe sobre os problemas: Jogada de Risco é divertida.
Criada e protagonizada por Cauã Reymond, que também divide a direção com Bruno Safadi, a produção tenta desmontar o glamour associado aos grandes gramados para revelar um ambiente movido por dinheiro, interesses e relações de poder. O futebol aparece menos como espetáculo esportivo e mais como uma indústria na qual a ética nem sempre acompanha os milhões envolvidos.
A trama acompanha Maurício (Cauã Reymond), um ex-jogador frustrado que tenta reconstruir a própria carreira como empresário de atletas. Ao entrar nesse universo, ele se vê cercado por um ecossistema amoral, no qual contratos milionários convivem com agiotagem, chantagens, prostituição de luxo, corrupção e disputas cada vez mais agressivas.
É nesse cenário que a série apresenta personagens que ajudam a sustentar a trama, com destaque para as atuações de Letícia Colin e Marcelo Adnet. Ambos encontram espaço para explorar personagens ambíguos, que transitam entre interesses pessoais, poder e sobrevivência dentro daquele mercado.
A produção também acerta ao incorporar à narrativa temas como manipulação de resultados, esquemas de apostas, homofobia e corrupção institucional. Esses assuntos não aparecem simplesmente como elementos decorativos: estão integrados ao funcionamento daquele universo e ajudam a mostrar como interesses financeiros podem se sobrepor aos princípios esportivos.
Sexo como parte da fórmula

Um dos elementos que mais chama atenção nos primeiros episódios é a quantidade de cenas de sexo. A série não economiza nesse aspecto e, em determinados momentos, parece fazer questão de transformar a ousadia em uma de suas marcas.
Logo no início, Daniele (Bruna Griphao) protagoniza uma sequência de forte carga sexual com o jogador Luan (Juan Paiva). Mais adiante, a narrativa intercala duas relações íntimas acontecendo simultaneamente: uma envolvendo Daniele e Geraldo (Breno Ferreira) e outra entre Rita (Letícia Colin) e Maurício.
O excesso, nesse caso, parece deliberado. As cenas ajudam a caracterizar as relações de poder e desejo entre os personagens, mas também funcionam como recurso para aumentar o impacto da produção e manter o espectador preso à tela.
É justamente aí que Jogada de Risco revela sua principal característica: a série não tem medo de exagerar.
Entre o exagero e o entretenimento

Tecnicamente, a produção funciona bem. A fotografia é competente, o ritmo é ágil e os episódios, com cerca de 30 minutos, favorecem uma narrativa que não perde muito tempo antes de apresentar novos conflitos.
A estrutura também contribui para o principal mérito da série: ela sabe criar curiosidade. Mesmo quando o roteiro toma caminhos previsíveis ou aposta em situações que parecem excessivamente convenientes, existe sempre algum novo conflito ou reviravolta capaz de empurrar a história para o episódio seguinte.
É perceptível a influência de produções recentes que transformaram a combinação de crime, sexo, dinheiro, poder e reviravoltas em uma fórmula recorrente do streaming. Jogada de Risco não parece interessada em reinventar esse modelo. Prefere utilizá-lo sem grandes cerimônias.
O resultado é uma série espalhafatosa, exagerada e, de certa forma, consciente dos próprios excessos. Quase nada do que ela apresenta é particularmente original. Mas isso não impede que funcione.
E talvez esteja justamente aí o maior mérito de Jogada de Risco: ela entende que, antes de qualquer outra coisa, precisa entreter.
Quando os créditos sobem, os problemas de roteiro continuam lá. Os exageros também. Mas, ainda assim, fica aquela sensação incômoda de que seria interessante saber o que acontece no episódio seguinte.
No fim das contas, talvez esse seja o jogo que a série realmente sabe jogar.
Jogada de Risco — 1ª temporada
- Direção: Bruno Safadi e Cauã Reymond
- Roteiro: Thiago Dottori, Flavio Araujo, Thais Fujinaga, João Ademir e Kariny Martins
- Disponível em: Globoplay
- Nota: ★★★½ (3,5/5)