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Como a tecnologia pode unir alunos e professores?

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Olá, leitores!

A tecnologia já é uma realidade presente no cotidiano de todas as pessoas, sejam professores ou alunos. Através de dispositivos móveis, notebook, televisões com inúmeros canais e programas de todas as naturezas e infinitas outras possibilidades conectam cada pessoa a uma fonte incalculável de novas informações a todo o tempo. Hoje em dia, por exemplo, qualquer pessoa pode acessar uma biblioteca de informações sem sair de casa.

Nessa avalanche de possibilidades, muitos professores acabam se sentindo ameaçados pelas tendências e rapidez tecnológicas e resistentes a elas, avaliando, muitas vezes como forma de substituição e até mesmo que atrapalhe o processo de ensino.

Essas mesmas tecnologias que fazem os alunos não prestar atenção nas aulas (redes sociais, por exemplo) podem também ser vistas, não como um inimigo, mas aliado dos professores em sua prática acadêmica, podendo aproximá-los de seus alunos de novas maneiras e também fornecer diversas ferramentas que levam o conhecimento, melhoram os sistemas de análise pessoal dos alunos e do contexto educacional e, se usadas com sabedoria e criatividade, são um enorme potencial para aproximar alunos, corpo docente e melhorar ainda mais a educação. Conheça algumas das principais possibilidades que a tecnologia promove para unir professores a seus alunos:

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  • Mais formas de comunicação: a tecnologia possibilita formas de comunicaçãoque vão muito além do contexto da sala de aula, podendo se estender para a comunicação remota entre alunos e professores e a facilitação de outras formas de expressão, como através de textos e imagens. Professores podem se utilizar de ferramentas de e-mail, grupos de e-mail e fóruns, por exemplo, para trocarem informações, atualizações e arquivos com seus alunos, como textos diversos, infográficos, vídeos, imagens, etc. Também pode ser uma ferramenta facilitadora para se aproximar de alunos que tenham dificuldades de comunicação socialpela fala, como os mais tímidos, por exemplo, que podem se sentir mais à vontade para iniciar uma aproximação através de recursos tecnológicos;
  • Mais ferramentas de aprendizagem: através da tecnologia, os professores tem acesso a incontáveis novas formas de transmissão de conhecimento para os seus alunos, como atividades interativas, simulações, videoconferências, palestras de outras pessoas cuja distância impediria os alunos de acessarem, dentre outros. Pela tecnologia, por exemplo, professores e alunos podem conhecer o acervo de museus em todas as partes do mundo, visualizar cartografias e planos geográficos, conhecer novas culturas, etc.;
  • Maior interatividade com os alunos: as tecnologias dominam as formas de comunicação entre as mais novas gerações. Os alunos, em sua quase totalidade, estão conectados a uma ou diversas formas de tecnologia da comunicação. Aproximando-se desses recursos, os professores também se aproximam das novas formas de compreensão de mundo e do outro que os jovens têm, promovendo maior interatividade entre eles. Os dispositivos tecnológicos já fazem parte da rotina dos estudantes, logo, ao conectar a eles, os professores têm novas formas de conectar com o mundo de seus alunos;
  • Ensino mais personalizado: hoje em dia, os professores já podem contar com diversas ferramentas de avaliação e análise do desempenho dos seus alunos, softwares e técnicas capazes de analisar o desempenho escolar de cada estudante, assim como apontar dificuldades e sugerir soluções para cada um deles. Utilizando-se dessas ferramentas, os professores podem ter uma visão individual e mais precisa dos seus alunos, compreendendo suas habilidades, tendências de aprendizagem e dificuldades – assuntos que melhor precisam ser trabalhados. Logo, ele tem maiores possibilidades para avaliar o próprio desempenho, de seus estudantes e personalizar o modo de ensino tanto no âmbito geral, como individual, promovendo uma aprendizagem mais focada nas reais necessidades educacionais dos alunos.

Boas aulas e até a próxima!

Fonte: Canal do Ensino

MORDIDAS NA CRECHE

Conheça medidas para evitar o problema e como reagir quando ele acontece.

POR RAPHAELA DE CAMPOS MELO

Nada mais corriqueiro no cotidiano das creches do que uma criança tascar uma mordida em outra. “Essas ocorrências são naturais na Educação Infantil. O que não exime a escola de fazer de tudo para que não se repitam”, defende Ana Paula Yazbek, coordenadora do Espaço da Vila, em São Paulo, e formadora de professores.

Ainda que desprovida de má intenção, a mordida é uma agressão, provoca dor e deixa marca. Por isso, precisa ser combatida. O primeiro passo é identificar as situações em que acontece. “Ela pode significar muitas coisas: demonstração de carinho – por vezes, aprendida em casa, com os pais – ou de interesse pelo colega, disputa por brinquedo, irritabilidade, tédio e até um meio de chamar a atenção”, lista Ana Paula. “Não podemos esquecer que nessa faixa etária os pequenos estão desbravando o mundo por meio da via oral”, acrescenta Cisele Ortiz, coordenadora de projetos do Instituto Avisa Lá.

Cientes desses diferentes aspectos, as educadoras do CEIM Cristo Rei, em Chapecó, a 545 quilômetros de Florianópolis, inseriram o tema no projeto político-pedagógico (PPP) e no planejamento dos 21 docentes do berçário e 20 do maternal.

“O ponto de partida foi conversar com as famílias para explicar o porquê das mordidas, mostrar a normalidade delas no desenvolvimento infantil e assegurar que seriam feitas intervenções pedagógicas para evitá-las”, conta a coordenadora pedagógica Juliana Sive Pommerening. Pais e responsáveis foram chamados a uma palestra na escola, organizada com base no texto Mordidas: Agressividade ou Aprendizagem?, do livro Os Fazeres na Educação Infantil (Maria Clotilde Rossetti- Ferreira, Telma Vitória, Ana Maria Mello, Adriano Gosuen e Ana Cecília Chaguri, 208 págs., Ed. Cortez, tel. 11/3611-9616, 52,20 reais).

As educadoras esclareceram que praticamente todas as crianças, entre 1 e 3 anos, em algum momento, usaram ou usarão tal conduta. Disseram também que esse recurso praticamente desaparece quando a linguagem está mais desenvolvida e enfatizaram que ficariam atentas. “Quando a mordida ocorre, é comum as famílias acharem que o filho não está sendo devidamente cuidado. Daí a importância do engajamento e da transparência por parte da instituição”, diz Ana Paula.

Além da parceria com os pais, o CEIM incluiu o tema na rotina e passou a ter um trabalho minucioso tanto para tentar evitar as mordidas quanto para fazer as intervenções necessárias quando ela acontece. A atenção com relação ao problema permeou as diversas atividades realizadas, desde os momentos de leitura até as brincadeiras. Como explica Ana Paula, as ações nesse sentido devem ser parte do dia a dia escolar.

Olhar atento dia após diaGravura de crianças mordendo objetos e até a página

“No início do ano letivo, ocorreram vários casos motivados por disputa de brinquedos e questões afetivas”, exemplifica Tatiana Bonato, que leciona para duas turmas de berçário. Sempre que episódios assim ocorriam, a educadora acalmava a vítima e, na sequência, conversava com quem tinha mordido. Em geral, o agredido não entende o porquê daquilo. E o autor do gesto não o vê necessariamente como uma violência. “Orientamos as professoras a confortar a criança ferida e mostrar ao colega o que ele fez. É importante que ele perceba a consequência da ação, mesmo sem ter tido intenção de machucar”, diz a coordenadora. Olhar para os meninos e meninas e dizer frases como “Não pode. Dói”, sem gritar, é uma boa opção. Com isso, espera-se que eles vão compreendendo que morder não pode ser a melhor forma de se comunicar.

Vale, também, mapear o primeiro evento, fazendo uma análise detalhada. Como a mordida se deu? A dupla estava brincando? Havia mais gente junto? Um deles estava ansioso para pegar o brinquedo? Ou animado, gargalhando? Havia indícios de irritabilidade? Assim, a educadora vai levantando pistas que auxiliam na compreensão do caso e ajudam a rever a organização das atividades em sala. Como diz o texto Mordidas: Agressividade ou Aprendizagem?, “para acabar com o problema, é preciso pensar sobre a rotina, o espaço, a quantidade e a variedade de brinquedos. Estar atento aos detalhes. Muitas vezes, são eles os fatores desencadeadores de mordidas”.

Quando o problema se repete

Mesmo com esses cuidados, casos de mordidas sistemáticas podem se dar e demandam uma atenção redobrada dos educadores. “Este ano, tivemos vários, protagonizados pelas mesmas crianças”, relata Tatiana. Em vez de recriminar os pequenos, a professora deixou que brincassem normalmente com a turma, mas passou a sentar próxima e ficar de olho para evitar novos episódios. Na visão de Ana Paula, este é o procedimento ideal: evitar colocar a criança de castigo e se manter por perto. A docente deve ainda se antecipar para oferecer algum brinquedo ou sugerir uma atividade, como pegar cada um pelas mãos para que, juntos, partilharem um livro, uma dança, uma bola etc. “Quem antes ia morder para obter o brinquedo percebe a presença do adulto observando e intervindo. Com isso, reduz-se a probabilidade de um novo incidente.”

Outra preocupação de Tatiana foi cuidar para que os que mordem mais não fossem rotulados. “Estereotipar é muito perigoso porque desde cedo a turma percebe comportamentos e características marcantes dos colegas e os que já são um pouco mais velhos comentam entre si”, esclarece a docente. Passar o sermão clássico de “bom menino não morde os outros” tampouco é uma postura aceitável.

A educadora e a coordenadora optaram ainda por conversar com as famílias dos que mais mordiam e colocá-las a par do que estava acontecendo. “Chamamos os pais e falamos sobre as ocasiões das abocanhadas, orientando-os a respeito do trabalho desenvolvido na escola e trocando ideias sobre as possibilidades para evitá-las”, relata a docente. O mesmo procedimento costuma ser adotado com relação aos que são mordidos. A escola conta com uma agenda de comunicação com os pais e faz reuniões com os responsáveis, por turmas, para explicar esses e outros fatos rotineiros. Quando o ataque é mais forte e deixa marcas, a coordenadora ou a educadora responsável pela turma liga para a família e explica o que houve, dizendo que pode vir buscar a criança um pouco antes do horário de saída e que estarão disponíveis para atendê-la. “Evitamos, assim, a surpresa da mãe que vai pegar o filho e o encontra machucado”, esclarece Juliana.

Ao longo do ano, com essas intervenções diárias, as educadoras do CEIM notaram não só uma drástica redução dos incidentes como também uma maior compreensão dos pais sobre o problema e o empenho deles em ajudar. “Grande parte passou a entender que a mordida não é uma agressão nem fruto do descuido das professoras da creche”, frisa Juliana.

O que fazer:

  1. Conversas iniciais Chame as famílias, diga que as mordidas são comuns na creche, mas que a escola está comprometida em evitá-las. Explique as intervenções feitas nesse sentido.
  2. Acudindo os pequenos Quando a mordida ocorre, acalme a vítima e, em seguida, explique para o colega dela que seu ato resultou em dor e choro, mesmo sem a intenção de machucar. Assim, todos vão compreendendo que morder não é uma boa forma de se expressar.
  3. De olho na repetição Quem morde deve seguir brincando com os demais. Para tanto, fique próximo, redobrando a atenção e propondo novas formas de brincar. Jamais coloque a criança de castigo.

ORIGINAL: http://novaescola.org.br/conteudo/11/mordidas-na-creche

O DESENHO E O DESENVOLVIMENTO DAS CRIANÇAS

Os rabiscos ganham complexidade conforme os pequenos crescem e, ao mesmo tempo, impulsionam seu desenvolvimento cognitivo e expressivo.

POR THAIS GURGEL
REVISTA NOVA ESCOLA

Reprodução/agradecimento a Creche Central da Universidade de São Paulo (USP)

“Sabia que eu sei desenhar um cavalo? Ele está fazendo cocô.”
“Vou desenhar aqui, que tem espaço vazio.”

“O cavalo ficou escondido debaixo disso tudo!” Joana, 3 anos

No início, o que se vê é um emaranhado de linhas, traços leves, pontos e círculos, que, muitas vezes, se sobrepõem em várias demãos. Poucos anos depois, já se verifica uma cena complexa, com edifícios e figuras humanas detalhados. O desenho acompanha o desenvolvimento dos pequenos como uma espécie de radiografia. Nele, vê-se como se relacionam com a realidade e com os elementos de sua cultura e como traduzem essa percepção graficamente.

Toda criança desenha. Pode ser com lápis e papel ou com caco de tijolo na parede. Agir com um riscador sobre um suporte é algo que ela aprende por imitação – ao ver os adultos escrevendo ou os irmãos desenhando, por exemplo. “Com a exploração de movimentos em papéis variados, ela adquire coordenação para desenhar”, explica Mirian Celeste Martins, especialista no ensino de arte e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. A primeira relação da meninada com o desenho se dá, de fato, pelo movimento: o prazer de produzir um traço sobre o papel faz agir.

Os rabiscos realizados pelos menores, denominados garatujas, tiveram o sentido ampliado sob o olhar da pesquisadora norte-americana Rhoda Kellogg, que observou regularidades nessas produções abstratas (veja no topo da página o desenho de Joana, 3 anos, e sua explicação).Observando cerca de 300 mil produções, ela analisou principalmente a forma dos traçados (rabiscos básicos) e a maneira de ocupar o espaço do papel (modelos de implantação) até a entrada da criança no desenho figurativo, o que ocorre por volta dos 4 anos.

No período de produção de garatujas, ocorre uma importante exploração de suportes e instrumentos. A criança experimenta, por exemplo, desenhar nas paredes ou no chão e se interessa pelo efeito de diferentes materiais e formas de manipulá-los, como pressionar o marcador com força e fazer pontinhos. Essa atitude de experimentação tem valor indiscutível na opinião de Rhoda:

“Para ela ‘ver é crer’ e o desenho se desenvolve com base nas observações que a criança realiza sobre sua própria ação gráfica”, ressalta Rosa Iavelberg, especialista em desenho e docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), no livro O Desenho Cultivado da Criança: Práticas e Formação de Educadores.

Esse aprendizado durante a ação é frisado pela artista plástica e estudiosa Edith Derdyk: “O desenho se torna mais expressivo quando existe uma conjunção afinada entre mão, gesto e instrumento, de maneira que, ao desenhar, o pensamento se faz”.

De início, a criança desenha pelo prazer de riscar sobre o papel e pesquisa formas de ocupar a folha.

Com o tempo, a criança busca registrar as coisas do mundo

Uma das principais funções do desenho no desenvolvimento infantil é a possibilidade que oferece de representação da realidade. Trazer os objetos vistos no mundo para o papel é uma forma de lidar com os elementos do dia a dia. “Quando a criança veste uma roupa da mãe, admite-se que ela esteja procurando entender o papel da mulher”, explica Maria Lúcia Batezat, especialista em Artes Visuais da Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc). “No desenho, ocorre a mesma coisa. A diferença é que ela não usa o corpo, mas a visualidade e a motricidade.” Esse processo caracteriza o desenhar como um jogo simbólico (veja abaixo o comentário de Yolanda, 5 anos, sobre seu desenho).

“Esse aqui não é um coelho. Não me diga que é um coelho porque é um boi bebê. Eu estou fazendo uma galinha que foi botar ovo no mato. Quer dizer, uma menina que foi pegar plantas no mato para dar ao marido” Yolanda, 5 anos

Muitos autores se debruçaram sobre as produções gráficas infantis, analisando e organizando-as em fases ou momentos conceituais. Embora trabalhem com concepções diferentes e tenham chegado a classificações diversas, é possível estabelecer pontos em comum entre as evolutivas que estabelecem. Pesquisadores como Georges-Henri Luquet (1876-1965), Viktor Lowenfeld (1903-1960) e Florence de Mèridieu oferecem elementos para a compreensão dos desenhos figurativos das crianças, destacando algumas regularidades nas representações dos objetos.

Desenhar é uma forma de a criança lidar com a realidade que a cerca, representando situações que lhe interessam.

Mais cedo ou mais tarde, todos os pequenos se interessam em registrar no papel algo que seja reconhecido pelos outros. No começo, é comum observar o que se convencionou chamar de boneco girino, uma primeira figura humana constituída por um círculo de onde sai um traço representando o tronco, dois riscos para os braços e outros dois para as pernas. Depois, essa figura incorpora cada vez mais detalhes, conforme a criança refine seu esquema corporal e ganhe repertório imagético ao ver desenhos de sua cultura e dos próprios colegas.

Uma das primeiras pesquisas dos pequenos, assim que entram na figuração, é a relação topológica entre os objetos, como a proximidade e a distância entre eles, a continuidade e a descontinuidade e assim por diante. Em seguida, eles se interessam em registrar tudo o que sabem sobre o modelo ao qual se referem no desenho, e é possível verificar o uso de recursos como a transparência (o bebê visível dentro da barriga mãe, por exemplo) e o rebatimento (a figura vista, ao mesmo tempo, por mais de um ponto de vista). Assim, a criança se aproxima das noções iniciais de perspectiva e escala, estruturando o desenho em uma cena, sem misturar na mesma produção elementos de diferentes contextos (veja abaixo a produção de Anita, 5 anos, que detém essas características).

“Vou desenhar a minha casa. Aqui é o portão e tem uma janela aqui.” Anita, 5 anos
“Dá para ver a sua mãe dentro de casa?” Repórter
“Não, porque a porta parece um espelho. Só daria se a janela estivesse aberta.” Anita

O desenho é espontâneo ou é fruto da cultura?

Entre os principais estudiosos, há uma cizânia. Há os que defendem que o desenho é espontâneo e o contato com a cultura visual empobrece as produções, até que a criança se convence de que não sabe desenhar e para de fazê-lo. E há aqueles que depositam justamente no seu repertório visual o desenvolvimento do desenho. Nas discussões atuais, domina a segunda posição. “A única coisa que sabemos ser universal no desenho infantil é a garatuja. Todo o resto depende do contexto cultural”, diz Rosa Iavelberg.

Detalhes da figura humana, noções de perspectiva e realismo visual são elementos da evolução do desenho.

Essa perspectiva não admite o empobrecimento do desenho infantil, mas entende que a criança reconhece a forma de representar graficamente sua cultura e deseja aprendê-la. Assim, cai por terra o mito de que ela se afasta dessa prática quando se alfabetiza. “O desenho é uma forma de linguagem que tem seus próprios códigos”, diz Mirian Celeste Martins. “Para se aproximar do que ele expressa, é preciso fazer uma escuta atenta enquanto ele é produzido.” Para Mirian, a relação entre a aquisição da escrita e a diminuição do desenho ocorre porque a escola dá pouco espaço a este quando a criança se alfabetiza – algo a ser repensado em defesa de nossos desenhistas.

* Os desenhos e os diálogos publicados nesta reportagem são de crianças de 3 a 5 anos da Creche Central da Universidade de São Paulo (USP)

ORIGINAL: http://novaescola.org.br/conteudo/121/o-desenho-e-o-desenvolvimento-das-criancas.

Quer saber mais?

  • BIBLIOGRAFIA
    O Desenho Cultivado da Criança: Práticas e Formação de Educadores, Rosa Iavelberg, 112 págs., Ed. Zouk, tel. (51) 3024-7554, 23 reais
  • Tratado de Psicologia Experimental, vol. 8, Paul Fraisse e Jean Piaget, 313 págs., Ed. Forense, tel. (11) 4062-5152 (edição esgotada)

A MOTIVAÇÃO NA RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO: UM PONTO DE VISTA A PARTIR DA PSICOLOGIA EDUCACIONAL

POR CYNARA RIBEIRO
PROFESSORA DA UFRN.

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Para entendermos melhor o papel da motivação na relação professor-aluno, vamos primeiro tentar situar o que é motivação e de onde ela vem. Etimologicamente, a palavra motivar reporta ao verbo latim movere, que deu origem à palavra motivo. Do ponto de vista da Psicologia, o sentido da palavra motivação relaciona-se de perto com o seu significado na língua: em termos psicológicos, motivação é definida como aquilo que move uma pessoa em direção a um determinado objetivo, é o que a põe em ação; é o que nos faz escolher, dentre um leque de opções possíveis, uma determinada ação; é o que nos faz iniciar esta ação e é o que nos faz manter esta ação.

Então, a motivação está na base de todos os comportamentos humanos, desde os mais primitivos até os mais complexos: há uma motivação para dormir e para acordar; há uma motivação para vocês estarem lendo esse texto; há uma motivação para eu estar escrevendo esse texto; enfim, tudo o que fazemos tem como pano de fundo alguma motivação. Pelo fato de a motivação estar na base de todos os nossos comportamentos, estudos concluíram que são diversos os fatores que atuam para desencadear ou manter o estado de motivação: há fatores fisiológicos, há fatores sociais, fatores culturais, fatores contextuais, dentre outros.

Agora uma pergunta: será que a motivação para comer é diferente da motivação para ser aceito em um grupo? Sim, são motivações diferentes: uma de cunho mais fisiológico, e outra de cunho mais relacional. E a motivação para aprender seria de cunho mais fisiológico ou seria de cunho mais relacional? Para a Psicologia, a motivação para aprender é de cunho mais relacional, diferente da motivação para comer, dormir, fazer determinadas necessidades, que são de cunho mais fisiológico. Mas se não vem apenas da fisiologia, de onde vem a motivação para aprender?

Acredito que vocês já devem ter ouvido uma frase do tipo: “ah, a motivação para aprender tem que vir do aluno, ele tem que querer”. Também acredito que vocês já devem ter ouvido uma frase do tipo: “ah, para estar motivado para aprender, o aluno tem que ser estimulado, por algo ou por alguém, pode ser uma recompensa, um elogio”. Essas duas posições extremas revelam uma dicotomia entre o que os estudos recentes têm chamado de motivação intrínseca e motivação extrínseca.

Na motivação intrínseca, o aprendiz é visto como alguém que já traz em si uma motivação, é aquela pessoa automotivada, que tem um papel ativo sobre a própria motivação. Já na motivação extrínseca, o aprendiz é visto como alguém que precisa de estímulos externos para se motivar.

escolaBom, se a gente entende (e eu entendo assim) que o ser humano se constitui no e pelo mundo, ou seja, que se constitui a partir de sua história de vida, de suas experiências, de sua relação com os outros, das próprias características da sociedade e da cultura em que está imerso, se a gente acredita nisso, essa dicotomia entre motivação intrínseca e motivação extrínseca revela-se frágil. Isso porque para uma pessoa estar intrinsecamente motivada a fazer algo é necessário que isso tenha alguma relevância no contexto no qual essa pessoa está inserida; de algum modo, a pessoa apreendeu que fazer isso seria importante.

Então, na verdade, motivação intrínseca e motivação extrínseca devem ser entendidas como um continumm. Isto é, há entre motivação intrínseca e motivação extrínseca não uma separação, mas sim uma continuidade. E qual é a importância dessa discussão para a educação? Bom, a importância de entender motivação intrínseca e extrínseca como um continuum é que isso nos adverte para não criar expectativas de “aluno ideal” ou de “professor ideal”. Nem existe esse aluno ideal, automotivado, com objetivos claros e disposição interna para alcançar tais objetivos; nem existe um professor ideal ou uma aula ideal, capaz de motivar todos os alunos o tempo todo.

Dizer que não existem aluno ideal e professor ideal implica em dizer que não podemos estabelecer relações simplistas (deterministas) entre atuação do professor e motivação do aluno. É claro que esses dois elementos se relacionam, mas não há entre eles relação de causa e efeito.

De fato, o que as pesquisas indicam é que há forte correlação da motivação dos alunos com dois elementos: a prática pedagógica e a própria motivação do professor. Sem desconsiderar a importância do primeiro, quero finalizar dizendo algumas palavras sobre o segundo elemento. E nesse ponto eu proponho a motivação como uma espécie de encantamento. O que é que isso quer dizer? Recorrendo de novo ao dicionário, temos que encantar é um verbo transitivo que significa: 1. Lançar encantamento ou magia sobre, enfeitiçar; 2. Transformar um ser em outro, por artes mágicas; 3. Seduzir, cativar; 4. Maravilhar-se, extasiar-se; 5. Transformar-se em outro ser por artes mágicas.

Percebam que o significado de encantar comporta uma aproximação com encantar-se: transformar um ser em outro por artes mágicas e transformar-se em outro por artes mágicas. Essas duas definições aparecem como se fossem a mesma coisa. Dessa aproximação, extraímos que, como disse uma pedagoga chamada Ostetto (2010), para exercer a magia, para lançar encantamento sobre outrem, é preciso que o indivíduo em primeiro lugar encante a si mesmo.

Assim, podemos dizer que “para encantar, é preciso encantar-se”. E para encantar e encantar-se é claro que é necessário conhecimento (é preciso conhecer os conteúdos, as técnicas, os métodos, as didáticas), mas não pensem que isso, por si só, será o suficiente. É preciso, além do conhecimento, entrega, desejo, disposição para o reconhecimento das próprias contradições e das contradições do outro, respeito ao próprio ritmo e ao ritmo do outro. Ou, repetindo, é necessário encantar-se para poder encantar.

Bibliografias Utilizadas

  • NUNES, Ana Ignez Belém Lima; SILVEIRA, Rosemary Nascimento. Os processos de aprendizagem nas psicologias de Vygotsky e Wallon. Psicologia da Aprendizagem: processos, teorias e contextos. Brasília, DF: Liber Livro, 2011. p. 103-131.
  • OSTETTO, Luciana Esmeralda. Para encantar, é preciso encantar-se: danças circulares na formação de professores. Caderno CEDES, v. 30, n. 80, p. 40-55, jan./abr. 2010.