Resultados de deputados estaduais e federais no 1º turno mostram fotografia mais fiel de movimentações dos grupos e lideranças políticas em São Miguel do Gostoso.
Por Ailton Rodrigues

O resultado do primeiro turno das eleições gerais, realizado neste domingo (4), deixou alguns recados importantes para quem acompanha a política de São Miguel do Gostoso. Mais do que os vencedores e derrotados para deputado estadual e federal, os números ajudam a entender como estão distribuídas as forças políticas do município às vésperas da eleição suplementar para prefeito, marcada para dezembro.
A votação para deputado costuma ser uma boa régua para medir a força das lideranças locais. Nem todo eleitor tem uma relação direta com esses candidatos e, muitas vezes, o voto passa pelo pedido de uma liderança, pelo grupo político ou por alguma relação construída no município. Por isso, os números ajudam a mostrar quem conseguiu puxar voto e até onde cada grupo consegue chegar.
E há outro dado que chama atenção: São Miguel do Gostoso continua apresentando uma votação bastante dividida ideologicamente. Embora Lula tenha vencido com folga a disputa presidencial no município, alguns dos principais resultados nas demais disputas apontam para uma presença importante do eleitorado de direita. No Senado, por exemplo, Styvenson Valentim foi o mais votado, com 4.760 votos, o equivalente a 34,17% dos votos válidos, enquanto Zenaide Maia ficou com 24,50%.
Nesse cenário, uma das surpresas da eleição foi Sargento Gonçalves. O deputado federal alcançou 665 votos em São Miguel do Gostoso sem, pelo menos de forma aparente, contar com uma estrutura local comparável à de outros candidatos apoiados por grupos políticos tradicionais.
Esse número merece atenção justamente por isso. Em uma eleição em que vários candidatos chegaram ao município acompanhados de lideranças e vereadores e grupos organizados, Gonçalves conseguiu construir uma votação significativa.
A questão que fica para a eleição suplementar é até que ponto essa votação mais à direita conseguirá se transformar em força política municipal. Voto de presidente, senador e deputado não se transfere automaticamente para uma eleição de prefeito. Mas, quando determinados nomes conseguem votação expressiva sem uma estrutura local claramente identificada, o resultado merece ser observado.
Começando pelos nomes que estão no jogo da eleição suplementar, Caio Fernandes apostou nas candidaturas de Nina Souza e Gustavo Carvalho. Os dois tiveram uma votação expressiva no município, mas o resultado também mostra um limite que, neste momento, parece próximo ao de outro grupo de oposição.
Zé de Luzenário e Neto da Saúde, juntos, apoiaram Neilton Diógenes e João Maia e chegaram a uma votação semelhante à do grupo de Caio. A diferença ficou em torno de 150 votos, a mais para os candidatos do PP. Não é uma distância tão grande quando se pensa em uma eleição municipal, mas é agregador quando se pensa em conjuntura.
Jean, por sua vez, teve uma estrutura maior à disposição. Além da força política de estar ocupando a Prefeitura, reuniu ao seu lado vereadores como Márcio Neri, Tiago Peixoto, Rodolfo e Irmã Letinha para trabalhar os nomes de Benes Leocádio e Ezequiel.
O resultado foi uma votação forte. Mas é importante olhar para além dos números: essa votação representa não apenas um sinônimo de força de Jean, mas também a soma de um grupo de vereadores que esteve empenhado na mesma tarefa.
Beto de Agostinho fez um movimento diferente. Foi de raposa solitária, mas soube escolher onde colocar suas fichas. Aproximou-se mais do PT municipal e apoiou Mineiro. Teve 176 votos, um número pequeno diante dos demais grupos, mas terminou a noite podendo comemorar a eleição do candidato que apoiou.
Na política, nem sempre é preciso ter a maior votação. Às vezes, é preciso apenas acertar a aposta.
Os Doquinhas saem do primeiro turno fragilizados. Eles, que vinha acompanhando pelas beiradas, demonstraram um certo teto eleitoral e ainda viram seus principais candidatos serem derrotados. Robinson Faria e Walter Alves não conseguiram alcançar seus objetivos e ficaram fora.
Já o PT municipal tem motivos para comemorar. Os candidatos apoiados pelo grupo conseguiram bons resultados, e Cadu de Lula também não sofreu a diferença que poderia se desenhar diante de Allyson Bezerra.
O resultado ganha ainda mais peso quando lembramos da relação do PT local com os grupos que passaram pela Prefeitura nos últimos anos. A antiga aliança acabou rompida e teve como um dos capítulos mais importantes a cassação de João Eudes.
Agora, depois do resultado deste domingo, o PT volta a aparecer com algum espaço para respirar e pensar no futuro. O partido conseguiu mostrar organização e capacidade de mobilização e, dependendo de como as próximas articulações forem conduzidas, pode até começar a mirar uma vaga no Legislativo municipal em uma próxima eleição. Mais do que isso é soberba.
No fim, a eleição geral acabou servindo também como uma espécie de prévia involuntária da eleição suplementar.
Não significa dizer que os votos para deputado serão automaticamente transferidos para prefeito. São eleições diferentes, com candidatos diferentes e, principalmente, com motivações diferentes.
Mas os números deixam pistas.
No final da noite quase todos os citados dormiram felizes seja pelos números obtidos ou pela eleição de seu apoiado… Mas tem gente que deve tá recalculando rotas.
Nós continuamos de olho.