Com alagamentos recorrentes, estradas deterioradas e ausência de planejamento, cenário em São Miguel do Gostoso se repete e tende a piorar
Por Ailton Rodrigues

Os problemas enfrentados em São Miguel do Gostoso parecem girar em torno de um ciclo previsível, quase como um disco riscado. Ano após ano, especialmente durante o período chuvoso no Nordeste, as mesmas pautas retornam: alagamentos, vias intransitáveis e prejuízos à população. O que muda, no entanto, é a intensidade desses impactos.
Impulsionadas pela atuação da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), principal sistema responsável pelas chuvas na região, e pelo aumento da temperatura do Oceano Atlântico, que em 2026 já registra cerca de 2 °C acima da média, a tendência é de períodos chuvosos cada vez mais intensos. Em outras palavras, não se trata mais de um problema pontual ou sazonal, mas de uma realidade climática em transformação.
Diante desse cenário, o que preocupa não é apenas a força das chuvas, mas a evidente falta de preparo do município para lidar com elas. A ausência de um plano de ação consistente escancara fragilidades estruturais. Buracos, acúmulo de lama e drenagem precária já são comuns até mesmo na área urbana, um quadro que se agrava significativamente nas estradas que conectam as 27 comunidades da zona rural, a maior parcela territorial da cidade.

A precariedade também se reflete na falta de dados básicos. O pluviômetro da Emparn, que deveria fornecer informações essenciais sobre o volume de chuvas, está há tempos sem operar. Sem dados confiáveis, o planejamento se torna praticamente inviável. E, como se sabe, informação é elemento-chave para prevenir desastres e mitigar danos, realidade bem conhecida por moradores de áreas mais vulneráveis, como o Conjunto Santo Cristo.
Há ainda situações que beiram o inadmissível. Regiões como o bairro das Quatro Bocas enfrentam, ano após ano, condições críticas durante o inverno: ruas tomadas por lama, buracos e até mau cheiro. Trata-se de um cenário que ultrapassa o desconforto e atinge diretamente a dignidade da população.
Outro ponto que agrava a crise é a dificuldade de comunicação. Secretarias municipais não respondem, não prestam esclarecimentos. O setor de comunicação institucional permanece ausente. Até mesmo vereadores relatam dificuldades em obter respostas do Executivo, apesar de levarem as demandas à Câmara. Diante disso, surge uma pergunta inevitável: quem responde pela população?
Este artigo aborda apenas uma fração de um problema muito mais amplo. A realidade exposta revela não apenas falhas pontuais, mas a ausência de uma política pública estruturada, capaz de antecipar cenários e proteger a cidade e seus moradores.
Enquanto isso, o tempo passa e as chuvas, ao que tudo indica, não vão esperar.