Animação do Studio Ghibli traz marcas profundas de como uma guerra pode acabar com a beleza do mundo e com a inocência das pessoas.
Por Ailton Rodrigues

Uma guerra não destrói simplesmente um território, ela acaba com a vida das pessoas. Transforma o desejo de paz em uma esperança e tira a perspectiva de prosperidade de uma geração inteira. Nada representa tão bem isso como Túmulo dos Vagalumes (1988), filme do renomado Studio Ghibli que chegou a Netflix nesta semana.
A trama acompanha os irmãos Seita e Setsuko que ficam órfãos em decorrência da Segunda Guerra Mundial. Os ataques aéreos diários, a devastação das bombas e a rendição do Japão são tratadas como plano de fundo para esse enredo, afinal o filme é baseado no livro de tom autobiográfico de Akiyuki Nosaka, publicado em 1976.
O ponto mesmo é que não se trata da guerra pela guerra, mas das consequências dela para a vida das pessoas. Como a violência arranca a empatia humana e transforma o que deveria ser básico em algo precioso. Tudo banhado com a sutileza do traço que parece uma pintura, destacando aqui a direção de Isao Takahata (também dirigiu ‘O Conto da Princesa Kaguya’).
Todavia, estando em um grupo vulnerável no contexto da guerra, os irmãos sequer conseguem ajuda da própria tia, muito menos das pessoas que encontram no caminho. Os jogos de ir e voltar em lembranças deixam aqui o filme mais especial: Seita em um momento precisa vender os roupões da falecida mãe para comprar arroz, no mesmo momento uma lembrança dela em pleno outono dilacera nosso coração. É forte, mas é a busca pelo básico da sobrevivência.
Outras das cenas mais emblemáticas são quando Setsuko enterra o conjunto de vagalumes que morreram durante a noite em um túmulo similar ao da sua mãe e mostra isso ao irmão que cai em prantos. Aqui é mais uma metáfora que só a animação poderia trazer.

Porém, Seita ao mesmo tempo que é tomado como heroi por tentar sobreviver, ele toma atitudes contraditórias que o deixam longe de ser um padrão hollywoodiano. Mas é aqui que vemos poesia ao trazer os vagalumes como personagens subjetivos, afinal são animais que iluminam ambientes ao mesmo tempo que morrem na sua fase jovem. Podem significar luz no fim do túnel ou será que reflete o quanto os irmãos podem ser luz um para o outro nessa difícil jornada?
Se você assistir ao filme, não terá como passar indiferente. É uma das obras mais cativantes e sensíveis que possa ter visto, além disso tem assinatura do Studio Ghibli que não se preocupa em fazer você chorar, rir ou até mesmo digerir reflexões de alto nível.
Túmulo dos Vagalumes (1988)
- Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐ (Excelente)
- Duração: 1h29 minutos
- Disponível: Netflix.